sábado, 4 de março de 2017

1o Domingo da Quaresma

O êxodo espiritual
Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 50; Rm 5,12-19; Mt 4,1-11


O grande êxodo espiritual dos cristãos (quaresma) inicia-se com o relato mais antigo da criação: um fragmento de Gn 2. Elementos de riqueza incomparável aparecem aí sem que toda a leitura e estudo possam esgotar sua beleza. O ser humano é modelado por Deus e tem Seu hálito de vida. Modelado fora do jardim e colocado nele pelo Criador. Noutras palavras, um hóspede em casa Divina. É como se essas primeiras indicações dominicais já dissessem ao que crê: o caminho é longo, a estrada é difícil mas o Senhor está contigo porque Ele te formou. Ao lado desta preciosa realidade aparece uma outra tão premente em nossos dias: a natureza criada. O jardim, a terra e a água são elementos que ilustram o cuidado divino com a vida humana (Campanha da Fraternidade). O doce sabor da vida, o fruto da esperança que ser humano nenhum tem direito de privar ou arrancar prematura ou arbitrariamente de outrem. Mesmo assim, o Gênesis sugere a desordem no meio humano pela insinuação da mentira no diálogo. A sutileza do texto repousa no reconhecimento de que os “olhos abertos” constatam, apenas, a fragilidade humana e ao o poderio do saber ou do querer ser igual Deus sem que Ele seja a fonte e o caminho deste crescimento. A busca humana pautada só em si é o passo certo para o fracasso e o desgosto que as próprias mãos anseiam e querem. Do barro o ser humano é levado à dignidade e beleza de “ser vivente”. Quando este mesmo ser humano quer – pelas próprias mãos – ser grande, lhe é lembrada a pequenez e fragilidade da vida. Lembra-se, aqui, do ditado popular: o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada.


Quando tocamos o Evangelho segundo Mateus, não temos outra opinião. Aqui continua o êxodo de Jesus começado em Belém, indo para o Egito e voltando ao deserto (40 dias). A primeira resposta à tentação é uma menção a Dt 8,3. Um texto belo e emblemático para toda a teologia do Antigo Testamento. Um texto que coloca sob nova luz todo o caminho de Israel pelo deserto naqueles tempos. O que procede da boca de Deus é, inclusive, o seu hálito de vida (1a leitura). No deserto Israel aprende que tudo é graças a Deus e é isso que Jesus fez, não só na tentação inicial do evangelho, mas em todas as tentações da sua vida (disputas com fariseus, multiplicação dos pães, curas e paixão). As duas seguintes tentações não tem como foco (direto) o ser humano mas se dirigem a Deus. Também citando Dt, Jesus sugere que a verdadeira adoração e o culto verdadeiro (como dirá à Samaritana no 3o Domingo) consiste em levar em conta a vida, o temor do Senhor e a força do Evangelho (que é Ele próprio). Tudo isso Jesus ensinará e viverá no seu êxodo entre nós. É este o grande compromisso de cada cristão e cada cristã para que os sinais dos tempos sejam sinais de vida e vida em plenitude.  

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