sábado, 25 de fevereiro de 2017

O decálogo

por Gianfranco Ravasi

“Decálogo” é o termo grego usado para definir aquelas “dez palavras” fundamentais que regem a moral bíblica, mas que contêm também os valores éticos gerais e naturais. Claro que o fato que essas “palavras” sejam Palavra de Deus comunicada sobre o Sinai, o monte da aliança entre o Senhor e Israel, dá ao decálogo uma qualidade religiosa radical, confirmada sobretudo pelo primeiro mandamento que tem três fórmulas: 

Teológica (Não terás outros deuses…), 

Pastoral (Não farás para ti ídolos nem alguma imagem…) 

Litúrgica (Não te prostrarás diante deles e nem lhes servirás). 

A sequência dos preceitos contém imperativos diretos e negativos, tais como: “não faças!”. Na verdade, este é um modo para sublinhar também o conteúdo positivo que essas leis possuem e assim podemos ver a moral bíblica não unicamente como uma ética do proibido. 

Poderíamos comentar o primeiro mandamento, sobre o qual todos os outros se apoiam, com as palavras do “Shema”, o “Ouve”, a profissão de fé que todo judeu tem dentro de si: Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh”. Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força (Dt 6,4-5). 

O segundo mandamento - não pronunciar em vão o nome do Senhor teu Deus - é mais do que a blasfêmia e condena a idolatria, sendo o ídolo uma coisa “vã”. Rejeita-se, assim, toda degeneração religiosa. 

O sábado, terceiro mandamento, é o oásis espiritual do culto, no meio do período ferial: através dele se entra no repouso divino, a eternidade, e se descobre a harmonia com a criação e se exalta a liberdade. 

O quarto mandamento é a essência da vida social; isso é provado pela bênção que segue: no pai e na mãe, que são os fundamentos da família, espelham-se todas as relações sociais. 

O “não matar” presente no quinto mandamento celebra, de modo positivo, o direito à vida. É claro que no Antigo Testamento existem exceções reguladas pela lei do Talião ou pelo “anátema”, o massacre sagrado, ou pelo pena capital. Será Cristo que recordará a radicalidade autêntica desse mandamento (veja Mt 5,21-22). 

O “não cometer adultério”, sexto mandamento, sublinha o direito ao matrimônio e propõe um uso humano e correto da sexualidade. 

O sétimo mandamento não só preserva o direito à propriedade, mas fala da liberdade pessoal. De fato, o “não roubar” tem a intenção de proibir o saque com o consequente sequestro de pessoas. 

A verdade, principalmente em âmbito processual, fundamental numa sociedade de tipo oral, é o objeto do oitavo mandamento, que ataca a “falsos testemunhos” nos processos. 

Os dois últimos mandamentos acenam ao direito da propriedade familiar: entre os bens (casa, escravos, bois, burros) é colocada também a mulher, considerada, numa sociedade patriarcal e machista, um tesouro não só em sentido afetivo, mas também como produtora de filhos. É este o sentido da encarnação da Palavra de Deus que não nos deixa esquecer os valores intrínsecos a fórmulas que muitas vezes são vinculadas à épocas históricas determinadas. 

O decálogo permanece, de qualquer forma, como dizia o próprio Lutero, o melhor espelho no qual você pode ver aquilo que lhe falta e aquilo que deve buscar. 

***


Gianfranco Ravasi (Merate, 18 ottobre 1942) é um Cardeal católico e teólogo italiano. Famoso biblista, hebraista e arqueólogo. Desde 2007 é presidente do Pontifício conselho para a Cultura, da Pontifícia comissão para os bens culturais da Igreja e da Pontifícia comissão de Arqueologia Sacra.

Um comentário:

Maria Emília disse...

É sempre interessante ler os seus comentários e com eles algo nos fica de novo. No que respeita aos 10 mandamentos eu penso que eles estão inscritos em todas as almas. Porque é que depois não se vivem, isso já não entendo.
Um grande abraço,
Maria Emilia