domingo, 28 de agosto de 2016

José e Jó: a estranheza que os une


Cada vez mais se busca, nos textos bíblicos, uma leitura que esteja atenta aos liames de sua narrativa. Os resultados obtidos, não raro, trazem novas luzes sobre o modo como se aborda criticamente estes textos com ferramentas da crítica literária para esboçar seus conteúdos com mais propriedade. Autores como Robert Alter e Frank Kermode já se puseram neste caminho com importantes contribuições no campo da narrativa bíblica. Este esforço sugere que existam, ainda, muitos elementos a serem explorados nesta direção e que podem, no horizonte das letras, serem de fundamental importância para a aproximação com o texto da Bíblia.

Com base nestas considerações, quero aproximar, neste trabalho, fragmentos de duas narrativas bíblicas bem conhecidas, a saber: o Livro do Gênesis, sobre a figura popularmente conhecida como José do Egito e o Livro de Jó. Ambas as obras distinguem-se, no cenário da literatura bíblica, como de grande envergadura no que concerne às suas linhas. Estas trazem não só elementos psicológicos como temas de alta relevância poética. O exercício será feito, portanto, tendo como plano de fundo, outra obra que servirá de escopo base: é o texto de Sigmund Freud, O Estranho. Esta obra, de 1919, não será abordada na íntegra, mas apenas um fragmento onde o autor discute, inicialmente, a etimologia de alguns termos. Recorrerei, vez ou outra - como a própria natureza de um exercício de etimologia o exige -, ao texto hebraico do Antigo Testamento como fundamento das considerações apresentadas aqui. Em alguns momentos usarei, também, a tradução espanhola de O Estranho uma vez que esta apresenta, mais que a tradução portuguesa, uma maior riqueza de detalhes nas citações que o autor faz dos textos da Bíblia.

Pretendo mostrar, então, como a ideia de estranho pode estar dita nos textos bíblicos com uma profundidade impressionante já que o próprio Freud cita, dentre outros livros bíblicos, Gênesis e . Além disso, o interesse primordial da minha pesquisa recai sobre um comentário de Freud que, en passant sugere apenas “uma” possível significação do termo Unheimlich no hebraico dizendo assim: “em árabe e em hebraico «unheimlich» coincide com demoníaco”. Uma vez indicada esta perspectiva, tentarei mostrar que existem outras possibilidades dentro do texto da Bíblia e, por isso, o recorte nesses dois livros (Gênesis e ) se faz muito apropriado. Em primeiro lugar porque existem citações explícitas do próprio Freud do Livro de Gênesis na obra (particularmente sobre José). Em segundo, porque o livro de Jó é um daqueles (se não aquele) que maior estranhamento gera ao leitor que observa suas linhas com atenção perscrutando a teologia do Antigo Testamento. Sendo assim, é fundamental clarear um pouco mais a acepção hebraica de “estranho” tendo por motivação a intuição de Freud na obra de mesmo nome. Uma vez que o autor não dedica mais que meia linha à etimologia hebraica, senti-me tentado a desenvolvê-la um pouco mais. É claro que este esboço carece de aprofundamento, mas isso o tempo e as leituras mostrarão onde. Por ora, limito-me a escrever as impressões que tive a modo de ensaio já que dizer alguma coisa é sempre melhor que não dizer nada em nível de pesquisa acadêmica.

Baixe o texto completo aqui.



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