segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Como uma chuva

Vi um buraco no céu. Nuvens escuras por toda a parte, deixando apenas um ponto azul-fosco. Naquele aoredor relampejava de tempos em tempos. De onde eu olhava parecia que em instantes carros e cavalos alados saltariam daquele portal. As nuvens iam fazendo voltas, os relâmpagos também. De tempos em tempos claridade, contra uma escuridão sem fim. Além da noite que fechava, os céus se preparavam para desabar. Senti um misto de maravilha e medo porque o maravilhoso é também o terrível. Aquele desenho no céu se contorcia, sem ruídos, apenas forma, apenas densidade. Nem um trovão se ouvia, caprichosamente. As nuvens assemelhavam-se a paredes de uma enorme gruta no céu. A claridade do azul, ao fundo, parecia o fim do túnel. O teto da gruta era como uma pedra cósmica, suspensa no infinito. Se rolasse era o fim dos homens, da terra e dos animais. Mas não rolou. Para minha paz e sossego. A base tingiu-se de negro, como uma pincelada de graxa preta pelas mãos de um pintor desleixado. Para uns seria arte bela, para mim era somente estranheza. Os relâmpagos continuavam. Naquele fim de tarde, parece que somente eu olhava para o além, para as costas dos montes, para o outro lugar. Somente eu. Não! Eu e meus medos, meus mais profundos abismos, minhas dores todas. E meus olhos não despregavam daqueles contornos monstruosos que o céu me mostrava... incólume.

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