sábado, 28 de maio de 2016

A Bíblia na Catequese

Desafios:

A tradição bíblica começa na casa, no clã, na família, mas depois é ofuscada pelo ambiente do palácio e do templo. Por fim, parece que é retomada, sobretudo, na tradição sapiencial;

A importância de se perceber a incidência da catequese no seio da casa, antes mesmo de se estender à comunidade maior, à comunidade eclesial e ao mundo;

A distância da casa e da mesa como elemento central do cristianismo, um elemento essencial que tem escapado das nossas práticas religiosas. O cristianismo parece ter se esquecido das suas raízes fincadas no querer de Jesus com o seus (desejei ardentemente – Lc 22), passando pelas comunidades primeiras e descolorindo-se ao longo dos séculos;

A dificuldade de se entender o que significa “família”, hoje. Uma falta de clareza com relação ao termo que dificulta o próprio caminho da catequese e a sua mobilidade. Assim, o anúncio de Jesus não se torna eficaz, interessante e não diz, de fato, algo ao sofrimento humano, à morte deste mesmo ser humano e à sua vida.

1. O ambiente da casa no Antigo Testamento

“Cada um tomará para si um cordeiro por família, um cordeiro para cada casa” (Ex 12,3).

Se antes a casa estava no centro, com o advento da monarquia foi se perdendo a sua centralidade. No tempo dos reis, era preciso ir a Jerusalém para as festas, o foco na casa vai mudando de lugar. Basta uma leitura atenta que isso pode ser verificado. O problema é que, junto com o desfoque da casa, a experiência de Deus feita pelo povo vai ficando, também, desfocada. É preciso, então, que algumas vozes se levantem para acusar essa lacuna: citemos Is 63,16; 49,1.15. Deus passa a ser próximo de novo; é imaginado como Pai, como mãe, irmão mais velho, Goel (resgatador).

Quando a tradição sapiencial ganha força, começamos a ver recuperada tal ideia novamente. Novos gritos se levantam: Ct 1,17; 2,9; 3,4. Que dizer do grito de Jó?: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te veem!" (42,5).

2. O ambiente da casa no Novo Testamento: alguns exemplos tomados dos Evangelhos Marcos

O termo grego oikos: local de habitação, significa, também, família ou linhagem; vinculação do homem com seu domicílio, sua organização, bem como os que nele habitam.

Oikia, por sua vez, indica  família, relações humanas, lar: 1,29; 1,30; 2,15; 3,25; 6,4; 6,10; 7,24; 9,33. A passagem que mais explicita o casa/lar pode estar em Mc 10,29.

Mc 2,15 (tradução literal)

E acontece reclinar-se ele na casa (oikia) dele (Levi). Muitos publicanos e pecadores estavam reclinados com Jesus e os discípulos dele. Eram, pois, muitos os que seguiam a ele.

O reclinar-se (katakleimai) designa a mesa: Mc 2,15; 14,3; Lc 5,29; 7,37; 1Cor 8,10. Akoloutéo é um verbo forte na teologia do segundo evangelista.

A maior ocorrência do verbo está no c.10 (4 vezes). Um dos mais interessantes é 9,38: "Disse-lhe João: Mestre vimos alguém (...) que não seguia a nós".

Em que medida o seguimento a Jesus deve ser pautado pelo nosso querer?
Quantas vezes queremos que as pessoas nos sigam e não ao Senhor?

João 14,2 ajuda-nos a responder: a família (oikia) de meu pai está aberta para todos!

Mc 7,24-30

Interessante o silêncio dos donos da casa. Parece não haver mais ninguém. Marcos não menciona. Essa casa vira um local de catequese. A mulher questiona. O demônio “torna-se” um pretexto para uma discussão profunda entre a mulher e Jesus. A mulher não é uma escutadora passiva, mas ativa, questiona. Não há menção de multidão e nem de discípulos. Ela se encontra com Jesus na casa de outra pessoa. É uma abertura muito interessante: outra família sem nome (oikia) possibilita o espaço para a catequese de mão dupla: ela catequiza Jesus e Jesus a catequiza.

O que aprender deste silêncio do evangelista sobre os donos da casa?
Como descobrir espaços que sirvam para uma catequese que olhe a pessoa?
Como aprender com a mulher a buscar em Jesus (ouviu a respeito dele) a
segurança e a certeza de que Ele é: Senhor?

Note-se que ela é estrangeira e isso não é marginal no diálogo!

Mc 14, 3-9

Em Mc 1,41 Jesus toca um leproso, mas é o leproso que fica limpo e não Jesus que se contamina. Onde é o lugar em que se passa a cena? Bet- Ania: casa dos pobres. Casa (oikia) de Simão (não sabemos quem é)

Há um vivo contraste no texto:

Marcos diz que é leproso (mal cheiro? Rejeitado? Excluído? Solitário?). Um contraste com o  Perfume da mulher (não se diz quem é). Alguns outros contrastes:

desperdício – boa obra
dar aos pobres – em mim
sempre – nem sempre

A função prática do texto é múltipla: a obra da mulher vem apresentada como boa e se torna modelo para o leitor. Mas se anuncia, antes, a mensagem da morte de Jesus e se afirma expressamente que o episódio merece ser re-contado. Interessante que a mBet-Ania – na verdade “pobres” sempre tendes convosco. Em Lc Jesus diz que o dono da casa não fez o que devia fazer, mas em Mc não.
A mulher poderia derramar todo o perfume em Simão, mas ela derrama em Jesus – Simão precisaria mais? Nele o povo não diria que era um desperdício. Em

Acho interessante a fala de Jesus: Pobres sempre tendes... pode ser uma denúncia dos próprios que acham que nele é um desperdício. Jesus tira do episódio um ensinamento sobre a paixão.

Sabemos tirar da realidade uma leitura da vida?
Sabemos reconhecer nos gestos das pessoas as obras boas ou só enxergamos o “desperdício”?
Os que se indignam “entre si” não são, boa parte das vezes os que se acham donos de Jesus?

Tentemos nos imaginar em cada um dos grupos do texto e ouvir a reação de Jesus. (Mulher, Simão e sua oikia, os presentes) .

Bom trabalho!

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