quarta-feira, 27 de abril de 2016

Conflito, Palavra e rosto: uma reflexão

Transcrevo minhas anotações da aula do Prof. Antônio Henrique Campolina. Um grande amigo e exímio pesquisador.

Seu mini-curso, no contexto da XXIV Semana Teológica do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio, teve como tema: Conflitos na terra onde Deus falou aos nossos pais. O Prof. Campolina iniciou sua exposição citando a importante tríade que está na raiz das diversas situações que cercam Israel: conflito - Palavra de Deus - terra. Para ele, são infinitos os olhares sobre essa realidade. 

É impossível abordar tais temas sem a referência a Abraão, o pai dessas três grandes religiões. Na gênese de sua história, o conflito já se faz presente: ele precisa sair. Sair significa andar e andar significa deixar alguém para trás, disse o professor. Quando se anda, o conflito se instaura. Aqui se verifica o que ele chama de “choque abraâmico”. 

Ao mesmo tempo, é preciso ter clareza de que o conflito não é prerrogativa daquela terra. Nesta altura, Campolina cita Agostinho. Eis, assim, um exemplo de conflito. Um homem de conflito. Nele, está presente o orgulho maniqueu (espiritismo da época), a relação religiosamente controversa de seus pais, seus laços afetivos, etc. 

Suporte importante nessa reflexão é aquele prestado por Emannuel Levinas. O filósofo da alteridade ajuda sobremaneira nessa multiplicidade de olhares. A Palavra é fundamentalmente relacional porque não pertence a ninguém. Nesse aspecto se insere a palavra da Bíblia exatamente porque a Bíblia não é a visão que Deus tem do homem, mas a que o homem tem de Deus. Como dizia o teólogo Yves Congar, “a Bíblia é um livro de antropologia”. 

É nesse sentido que a Palavra de Deus me situa sempre, diante do rosto de alguém. O rosto, para Levinas, é mensagem. Ele não existe para si, mas para o outro (rosto). Eu existo para responder ao outro, sou um ser responsível. Assim sendo, o rosto é imprevisível em sua unicidade. É mistério total. Mistério de pensamento e incerteza. A grande dificuldade do processo religioso está em querer ser definitivo num contexto de contingência. Aí reside a raiz de todo fundamentalismo. Dessa forma, o oposto da fé não é a incredulidade, diz Campolina, mas a idolatria. Assim como o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.

Sugestões de Leitura:


LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1980.
BUBER, Martin. Eu e Tu. Trad. N. Aquiles von Zuben. 2ª ed. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
Hans Küng. Islam: Past, Present & Future. Oxford: Oneworld, 2007.

Antonio Henrique Campolina Martins
É Doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universitas Lateranensis (Roma), com Tese publicada sobre a moralidade em um texto jurídico-institucional medieval. Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora.

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