terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Serpente: uma incógnita literária



De saída devo avisar que esta é uma leitura literária e não teológica do Gênesis. É bom ler, antes, o capítulo terceiro do referido livro.

Podemos notar que à serpente é permitida a palavra. É sintomático que ela surja no cenário e se dirija, sem mais, à mulher. O leitor repara que, ao cumprir sua função no relato, a serpente sai de cena e nos deixa com uma série de problemas nas mãos. Estes perpassarão toda a Bíblia meio que sem respostas. O diálogo se inicia com uma pergunta que é ‘naturalmente’ respondida pela mulher. Destaco, aqui, o ‘naturalmente’ porque não causa nenhum estranhamento à mulher o fato de a serpente lhe dirigir a palavra.

A serpente possui a palavra e faz uso dela. Não se diz quem lhe deu a palavra, ela já aparece falando. Podemos notar que a introdução do seu discurso é preparada com o mesmo verbo que se usa até mesmo para Deus e para os profetas ou outras figuras bíblicas importantes: wayy‘omer (e disse). Em suma, um verbo bastante comum.

É um diálogo paradigmático que coloca pela primeira vez na Bíblia (em nível de reflexão) a questão sobre o bem e sobre o mal . Ele influenciará o pensamento bíblico posterior e tocará outras obras dentro do corpus bíblico. É importante aproveitar o que eu chamaria de ‘léxico da Serpente’. Entendo por isso o conjunto de palavras que ela pronuncia. Visitar o léxico da serpente pode ajudar muito a clarear esta figura de um animal que surge no terceiro capítulo da Bíblia. Se olhamos com cuidado para esse léxico, vamos notar que é modesto, porém, muito incisivo: ela fala com a mulher, única e exclusivamente. Não fala com o homem e nem com Deus. Ele (Deus), aliás, parece não permitir que ela diga nada e com isso o texto poderia sugerir que a distância original (Criador x criatura) está sendo mantida. Em contrapartida, a serpente se aproxima do ser humano um pouco mais (fala com a mulher). Em outras palavras, ela influencia a mulher (Ishah) que influenciará o homem (Ish). Neste sentido, ela se coloca num patamar ligeiramente superior, é capaz de persuadir. A imagem dos olhos que se abrem é metáfora riquíssima não só na Bíblia.


O Léxico da serpente

“Então Deus disse: vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?” (Gn 3,2)

“Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (Gn 3,4-5)

Continua ...

2 comentários:

Mayra Lopes disse...

No princípio era o verbo, e o verbo era Deus. O léxico da serpente tem que ser pobre.
Mas se até ela fala é com permissão de Deus. Me faz lembrar algo meio Jó: Quando Deus permite o diabo cumpre.

Seu Jayme disse...

Tudo que Deus criou é bom, a seu tempo (Ecles 3,11a).
TUDO É CRIAÇÃO DE DEUS, INCLUSIVE A SERPENTE. ESTA, É FERRAMENTA PARA O SER HUMANO TRABALHAR A SUA LIBERDADE NA CONSTRUÇÃO DO REINO JÁ...