quinta-feira, 31 de março de 2016

O Pecado Original?


Esta é uma das mais famosas pinturas de Michelangelo. Ela revela, a um primeiro olhar, elementos interessantes para o propósito desta leitura. O observador percebe que a serpente é antropomorfizada com traços da fisionomia feminina. Assim como, no conjunto da pintura, o famoso detalhe do dedo de Deus se aproxima do dedo humano (criação), aqui a mão da serpente toca explicitamente a mão da mulher.

Alheio a tudo isso, o homem parece empenhado em colher alguma coisa da árvore enquanto que o diálogo fica restrito à mulher e à serpente. O braço direito da mulher está apoiado ao solo, o da serpente segura-se à árvore. O do homem procura algo entre as ramagens enquanto que é o esquerdo que se apóia à árvore. Há um contraste interessante entre a verdura das folhas da árvore e um galho seco logo abaixo que poderia indicar a esterilidade que a queda começa a provocar. Tudo isso, no entanto, tem traços teológicos que não são contemplados aqui.

A cena é muito limpa e outros animais não estão presentes. Nem mesmo o fruto é visível a todos os que contemplam de fora e de dentro da cena. Pela cor da pintura, o homem se assemelha mais ao solo enquanto o solo mesmo parece rochoso. Também a serpente tem uma coloração avermelhada, idêntica ao corpo do homem. Somente a mulher é mais clara na cena. Quase todas as linhas (da esquerda para a direita) são decrescentes: o galho da árvore, a rocha de apoio, a linha ao fundo da cena, o modo de a serpente enrolar-se na árvore. Além disso, na narrativa de Gn 3, a serpente parece ser a maior figura da cena e a que mais exerce a influência sobre o casal humano.

Pintura: Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni. Itália (1475-1564).

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