quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Mão seca em corpo seco



PRADO, Adélia. O Homem da Mão Seca. 2a Ed. São Paulo: Siciliano, 1994.

A leitura de O Homem da Mão Seca não é facilitada por uma divisão formal de capítulos, introduções temáticas ou encadeamentos de assuntos. Sua tessitura é um tanto quanto caótica, à primeira vista. Tudo isso sem mencionar a linguagem coloquial que – não raro – se mistura a uma narrativa de forte tonalidade poética. A obra se desenvolve na forma de um diário. Talvez um diário com espaços mais longos - se é que se pode dizer assim. Parecem mais memórias que anotações diárias. Há várias menções de cadernos que estariam sendo escritos:

“De quando o Soledade me beijou, até hoje – faz quatro anos – nada mais teve seguimento em nenhum dos meus três cadernos” (p. 41).

Assim, o que se observa é um romance entrelaçado de tempos, espaços e situações não tão definidas. Os verbos estão preponderantemente no presente e o leitor experimenta os eventos narrados agora, na medida em que os lê.

As motivações dos escritos são acontecimentos na vida da narradora. Esta, em primeira pessoa, desenvolve o romance elaborando seus escritos mais ou menos à medida que emoções e situações mais marcantes irrompem em sua vida. A obra conduz o leitor por um caminho onde se misturam fé, questionamentos, tristeza, alegria e dor. Os sentimentos são vivos e coloridos. O leitor se sente, a todo instante, no lugar da protagonista com seus diabos e demônios, angústias e júbilos. Aliás, as referências ao demônio aparecem, a todo momento, de modo leve e bem humorado tal qual Satã no livro bíblico de Jó.

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