terça-feira, 7 de julho de 2015

Da Hospitalidade


ANNE DUFOURMANTELLE convida JACQUES DERRIDA a falar
DA HOSPITALIDADE. São Paulo: Escuta, 2003, 144 p.

Resenha

1. Dois livros em um

Na verdade trata-se de duas obras em uma. A própria forma do texto tem um caráter de hipertexto uma vez que o leitor percebe o diálogo entre as duas partes. Anne Dufourmantelle é filósofa e psicanalista e propõe a Derrida que lhe confie duas de suas sessões. Assim, o que se tem nesta obra dupla é a reflexão que Dufourmantelle faz das principais considerações de Derrida bem como a própria “fala” dele.

Imagino, então, que devamos falar da coluna da noite (par) e da coluna do dia (ímpar) inspirados na própria Anne (p. 4). A dela seria a parte noite, isto é, o silêncio em torno do qual o discurso se ordena. A Dele, a parte dia, onde está presente o visível e a memória.

2. Frases e expressões destacadas: minhas próprias inscrições na leitura da parte “noite”

“O como da verdade é precisamente a verdade”, uma citação do filósofo dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard (p. 20). Recorto, ainda, esta afirmação: “um dos nomes desse desamparo, em filosofia, é o espanto” (p.32). Sobre a hospitalidade: “talvez apenas aquele que suporta a experiência da privação da casa pode oferecer hospitalidade” (p.54). o tempo é sempre um tema recorrente tanto em filosofia como em letras. Uma alusão ao hebraico é interessante aqui: “se em hebraico ´fabricar tempo´ é equivalente a convidar, o que é então essa estranha inteligência da língua que pressupõe que, para se produzir o tempo, é preciso ser dois, ou, antes, que é preciso que exista o outro, uma efração do outro original?” (p.72). “O assassinato do outro homem é a impossibilidade de dizer ´eu sou´”, citando Lévinas. (p.72)

3. Anne Dufourmantelle: algumas intuições

Na coluna da noite, Anne passa em revista alguns conceitos desenvolvidos por Derrida. Achei por bem destacar alguns onde ela, mais ou menos detidamente, se debruça e desenvolve reflexões. É uma marca desta obra (e do pensamento derridiano), a volta ao cerne do significado das palavras. Para tanto, é bom lembrar: o tema da hospitalidade carrega em si um paradoxo uma vez que hostis, em latim, significa hóspede, mas também, hostil! A dubiedade da palavra nos coloca questões várias. Ela discute, ao redor da hospitalidade, o tema da proximidade. Ele se avoluma em todas as suas linhas uma vez que a proximidade é este que vem de fora e se aninha no seio do em-si, da casa tendo um quê de ilícito e, hostil. (p.6)

Enquanto justifica a transmissão dos fragmentos, Anne pontua elementos importantes tais como o horizonte da própria palavra. Escreve ela: “é difícil perceber alguma coisa da justeza de uma palavra sem tomar a medida de seu passo, isto é, de seu rumo e do tempo exigido para dizê-la (p.18 e 20). A entrada no lugar desconhecido que sempre provoca estranheza. Isso gera susto, angústia. Isso leva ao desamparo que citei acima. (p.20 e 32).

A seguir, Anne passa a refletir sobre o tema da noite. “O amor como estrangeiro à condição humana, manifestando a parte Noite, que é a parte dos deuses”, citando Patocka (p.40). A noite é, para Patocka, a abertura para o que abala (p.44). Implica num atravessar a experiência da perda de sentido. Anne continua: “quando uma palavra faz parte da ´noite´, ela nos faz entender as palavras de outra maneira. Assim, falar ´do próximo, do exilado, do estrangeiro, do visitante, do sentir-se em casa de outro´ impede conceitos como ´eu e o outro´ ou ´sujeito e o objeto´ de se apresentarem sob uma lei perpetuamente dual”. (p.50)É neste sentido que a linguagem não vem romper a distância entre eu mesmo e o outro, mas ela a aprofunda. (p.72)


4. Jacques Derrida 4.1. A questão do estrangeiro: vinda do estrangeiro

A questão do estrangeiro é uma questão de estrangeiro. Derrida reflete ao redor do conceito porque o que chega traz, ele mesmo, suas questões que são colocadas aos que estão. A questão que ele, então, coloca, também se dirige a ele. (p.5). Como é de seu costume, Derrida trilha obras importante para trazer à luz seu pensamento. É o diálogo de Derrida com Platão, via Sócrates. Ele se volta os diálogos de Platão onde, muitas vezes, quem questiona é o estrangeiro. Nesta sessão, trilha o Sofista (p.7).

O estrangeiro é alguém que não fala como os outros, que fala com uma língua engraçada, como o sofista. O estrangeiro carrega e dispõe a temida questão, ele vê e prevê, ele sabe antecipadamente ser posto em questão pela autoridade paterna e razoável do logos (p.11). Qual é a sutileza da retórica de Sócrates? Está no fato de queixar-se de não ser sequer tratado como estrangeiro (p.19). Está em jogo a relação entre o visitante e o hospedeiro. O estrangeiro (em grego, ksénos) é o outro absoluto. A questão do nome ganha importância fundamental porque ela é da ordem do hospedeiro que ainda tem o ethos. Mas o estrangeiro só tem o nome.

A língua aparece, aí, como critério importante. Quando se perde hospitalidade numa língua estrangeira já se está numa posição ligeiramente inferior (p.23). Isso se amplia e se torna ainda mais complexo quando este estrangeiro se coloca sob as leis do outro. Sendo julgado numa outra língua. Inclusive, o que Derrida chama de tradição cosmopolítica. Entendo isso como aquela que oferecemos àquele que se nomeia e se explica através de um pacto onde eu, como hospedeiro, imponho condições para a acolhida (p.25). Entretanto, Derrida cita o paradoxo de que esta forma de hospitalidade se contradiz com uma forma que denomina de absoluta, ou seja, aquela que não dita condições. A questão do estrangeiro sempre volta: quem é ele? Quem é ela? O que significa ir para o estrangeiro?

Este elemento sempre aparece, mesmo após uma investigação minuciosa do que o familiar e o não familiar, estrangeiro e não estrangeiro, cidadão e não cidadão (p.39). Derrida também se debruça sobre as malhas do pantanoso terreno da comunicação virtual e das intervenções do estado na vida privada (p.47). Ao concluir a primeira parte ele diz que o estrangeiro “não é apenas aquele ou aquela no estrangeiro, no exterior da sociedade, da família, da cidade”. Para tanto, as relações com o estrangeiro é mediada pelo direito. (p.65)

4.2. Nada de Hospitalidade, passo da hospitalidade

É a segunda parte da obra onde Derrida sugere uma dubiedade com o original Pas d´Hospitalité. Na leitura/audição, pas pode ser “não” (p.67). Nesta parte, o filósofo sugere que por meio da hospitalidade incondicional “digamos sim ao que chega, antes de toda determinação, antes de toda antecipação, antes de toda identificação, quer se trate ou não de um estrangeiro, de um imigrado, de um convidado ou de um visitante inesperado, quer o que chega seja ou não cidadão de um outro país, um ser humano, animal ou divino, um vivo ou um morto, masculino ou feminino” (p.69). Para Derrida, a prática da hospitalidade por dever não é mais uma hospitalidade absoluta. (p.73 e 75)

Há uma necessidade de transgressão da lei para que se ofereça uma hospitalidade absoluta. Derrida introduz um tema ainda muito importante no cenário diaspórico da hospitalidade. Para ele, “as pessoas deslocadas, os exilados, os deportados, os expulsos, os desenraizados, os nômades, tem em comum dois suspiros, duas nostalgias: seus mortos e sua língua (p.79). A língua passa a ser, então, lugar de moradia, última pátria, última morada. À luz de Kant, Agostinho, Gênesis e Juízes 19, nesta última parte da obra, Derrida nos defronta com algo importante: “somos nós herdeiros dessa tradição das leis da hospitalidade? Até que ponto? Onde situar a invariante, se é que existe uma, através dessa lógica e desses relatos?” (p.135)


2 comentários:

Anônimo disse...

Gostaria que o senhor comentasse:
http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/imp34art09.pdf

A. ANDRADE disse...

Um texto muito interessante e bem escrito. Creio que é hora de pensar teologicamente sobre isso. Alguns autores já discutiram o tema da homossexualidade na Bíblia e isso é relevante para os tempos modernos. É uma realidade que perpassa nossos tempos e que precisa de voz. A teologia não pode estar à margem, precisa discutir. No entanto, esta discussão tem que ser bem fundamentada e não se pautar em “ouvir dizer”, mas ter uma palavra interessante e hospitaleira.