quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Serpente: uma incógnita literária - Parte II


É importante que se diga que os capítulos segundo e terceiro estão em diálogo neste bloco, se interdependem. Não significa formular, aqui, uma exegese histórico-crítica mas perceber o teor da narrativa que os envolve. Eles se destacam tanto temática quando terminologicamente do primeiro e do quarto capítulos como demonstro a seguir:

E YHWH Deus deu a homem este mandamento: podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer (2,16-17).
Então Deus disse: vós não podeis comer de todas as árvores do jardim? (3,1)
Não, não morrereis (3,4)
Comeste então da árvore que te proibi comer? (3,11)

Os dois estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonhavam (2,25)
Tive medo porque estou nu e me escondi (3,10)

YHWH Deus (2,4b.5.7.8.9.16.18.19.21.22)
YHWH Deus (3,1.8.9.13.14.21.23)

O éden (2,8.10.15)
O éden (3,23.24)

Um dos pontos de destaque reside no fato de que o homem havia nomeado (também) a serpente. Isso se levarmos em conta, como demonstrei, a relação de dependência existente entre os capítulos dois e três. No entanto, agora aquele animal nomeado se configura como o que é capaz de estabelecer um diálogo extremamente provocativo. Talvez, mais em nível de curiosidade, fosse importante ressaltar a sutil sonoridade que o hebraico revela ao (quase) sugerir uma associação entre ‘arûm e ‘êrûm, respectivamente: astúcia e nudez.

O narrador nos dá uma informação deliberada ao ‘apresentar’ a serpente. Ele diz que ela “era o mais astuto de todos os animais dos campos” (Gn 3,1). Contra os que vêem aí uma imagem demoníaca fica o aviso de que a narrativa a coloca como (simplesmente) uma criatura dentre as outras. As consequências teológicas que resultam desta afirmação são muitas e passam ao largo desta minha leitura, como já indiquei. Voltemos, então, ao propósito de ‘arûm que é um substantivo (astuto) derivado de ‘arôm. Este significa ter cuidado, acautelar-se, receber conselho astuto, ser prudente.

Embora o termo possa ter conotações negativas é extremamente interessante que a Bíblia grega o tenha traduzido por phronimós que, segundo o grego clássico, pode significar sensatez, estar no perfeito juízo, ter espírito reflexivo, presença de alma, consciência de si mesmo (PEREIRA, 1951, p. 604). Fica explicitado, assim, o talento (‘arûm) da serpente em contraste paronomástico com a nudez-inocência (‘êrûm) do ser humano. Estes e outros elementos mostram a viva impressão do narrador que nos oferece um relato extremamente bem construído e com inteligente reflexão sobre diversos ângulos da relação homem-animal.


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