sexta-feira, 26 de junho de 2015

A Bíblia: um texto literário


A formação do texto da Bíblia não foi feita de um fôlego só. Ainda repousa sob o véu da incerteza o lugar de suas grandes coleções textuais, a sua origem e seu desenvolvimento. Em nível de história, há certo consenso de que o séc VI a.C. pode amparar grandes redações deste texto e ser, ao mesmo tempo, a mola que impulsiona a gênese de outros tantos. Com isso estamos na época persa, depois de 530 aC. Por esse tempo, podem estar nascendo alguns dos que serão grandes clássicos da literatura hebraica conhecida.

É fato, também, que existem textos para os olhos e outros para os ouvidos. Significa dizer que, no caso da Bíblia, isso se torna muito evidente. Para os primeiros, lançamos, aqui alguns importantes elementos norteadores para esta conversa. Para os segundos, ou os que nascem para os ouvidos, compreendem uma grande parte do que, hoje, as pessoas entendem sobre Bíblia.

Falar de um texto para os ouvidos significa dizer daquele que vem, em primeiro lugar por uma tradição que dizemos oral. Um grande exemplo de textos representantes desta camada são os Provérbios. Estes nascem a todo tempo, em diversos ambientes como casa, templo, palácio, escola, etc. Outro exemplo bem conhecido é o dos Salmos cuja datação não gera pouca dificuldade devido ao mesmo fator anterior, isto é, a todo tempo se canta, se celebra e se comemora as diversas festas e se canta o sofrimento no seio da humanidade. Importa dizer que grande parte dos salmos estão sob a cítara de um cantor de lamentos.

No que se refere aos textos para os olhos pisamos um terreno onde se acusa uma formação bem cuidada, pensada e refletida na sua grande parte. Nesta dimensão temos, na Bíblia, os mais diversos gêneros literários. Para citar alguns pode-se apontar para a novela (como a história de José do Egito ou o livro do profeta Jonas); verdadeiras obras de ficção (Livro de Jó); jograis (Cântico dos Cânticos); parábolas e alegorias, narrativas longas e bem “fabricadas” que não variam na sua essência revelando o gosto do autor por formas bem cuidadas.

Exemplos bem claros destes últimos podem ser encontrados no chamado Pentateuco, ou Torah, ou cinco primeiros livros da Bíblia, mais precisamente no Gênesis e no Êxodo. O Narrador bíblico tem gostos especiais que fogem do olhar de um leitor ou leitora que vê na Bíblia única e exclusivamente um livro religioso e doutrinário. “É importante lembrar que a Bíblia não nasceu como fonte de doutrina, mas como textos meio selvagens que vão sendo domesticados pela nossa leitura” (Konings,2004).

Uma técnica flagrante do narrador bíblico é o uso do diálogo. É uma prática permanente onde quase sempre ele limita a cena a dois personagens de cada vez. Em alguns momentos é um diálogo entre um personagem e um grupo que fala numa única voz. A função deste diálogo quase sempre é contrastiva, revelando cada personagem que fala aos olhos do leitor (Esaú e Jacó).

A Bíblia é uma antologia. Tanto no judaísmo como no cristianismo não se pode falar da existência da Bíblia até o momento da definição do cânon. É a conclusão de um texto num conjunto maior de textos. Isso lhe confere um outro significado. Konings prossegue dizendo que “ler os textos bíblicos como literatura significa lê-los como qualquer outro texto, levando em conta sua emissão e recepção. Não se trata de literatura em sentido estrito das belle lettres, mas no sentido de texto escrito no qual um ‘autor’ (entenda-se também no plural) comunica um significado para um destinatário” (Konings,2004).

Faz-se necessário, ainda, acenar para o fato de que a Sagrada Escritura constantemente se relê, se re-interpreta e se recoloca nos diversos cenários sócio-culturais que lhe são comuns. Isso denota uma tradição que legitima, dialoga re-aproveita textos e temas ao longo dos dois corpus da Bíblia, isto é, Antigo e Novo Testamentos.

Isso revela, para concluir, deixando espaço para futura conversa, o que brilhantemente o autor pontua:

“A Bíblia defronta-nos com uma literatura cujo impulso inicial parece meramente educativo ou informativo, sem lugar para o simples deleite. Se, no entanto, não nos dermos conta de que os criadores da narrativa bíblica eram escritores que, como quaisquer outros, entregavam-se à exploração dos recursos formais ou imaginativos de seu meio ficcional – às vezes captando a plenitude de seu tema em meio ao próprio jogo da exploração -, perderemos grande parte do que as histórias bíblicas tem a nos dizer” .

(ALTER, Robert. A Arte da Narrativa Bíblica. Companhia das Letras, São Paulo, 2007, p. 78.)


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