terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Existe um sentido para Jó?

O livro de Jó é um dos mais belos da Bíblia. Quanto à clássica “paciência de Jó”, jamais existiu no todo da obra! Ele questiona o dogma sapiencial vigente em sua época: a chamada teologia da retribuição segundo a qual quem age com justiça é recompensado e quem age injustamente é acometido pela desgraça.

O que a obra reflete é o sofrimento de um homem que se reconhece inocente. No entanto, seus três “amigos” (da onça), Elifaz, Bildad e Zofar (e posteriormente Elihú) são defensores desta ortodoxia, i.é., aceitam o que classicamente é ensinado em sua teologia, não admitindo formalmente que Jó não concorde com os fatos. É essa a mola mestra da grande sequência de discursos. Jó protesta porque sabe que é inocente e “muito mais do que seus ‘amigos’, que não compreendem e que duvidam de sua probidade, é com Deus que Jó quer debater, com um Deus que ele respeita muito, ao qual ele afirma ter sido sempre fiel e que ele continua acreditando ser o único que pode dar um sentido à vida e à morte. Jó não quer abandonar a luta, porque sabe que há alguém com quem falar, alguém que é responsável e que pode responder”.

Ele acaba por permanecer sozinho esperando que Deus lhe responda. É curioso, no entanto, que Ele (Deus) se esquiva desta resposta. O leitor percebe que no livro Deus não reponde a Jó da forma como ele queria e, indiretamente, da forma como o leitor gostaria. O problema do sofrimento continua em aberto. O livro não tem a fórmula para resolvê-lo. E nós, temos?

Sobre a esquiva divina, Santo Agostinho dizia, mais ou menos com estas palavras, que se você o compreende a Deus ele não é (mais) Deus. Há uma noite escura na vida de Jó. Seus lamentos cortam a madrugada e na alvorada ele é outra pessoa. Pode-se afirmar que a chave de resposta que aparece em 42,5. Consolar é participar no silêncio (2,13). Nem sempre o explicar e falar é apropriado diante do sofrimento, mas o silêncio e a escuta. Jó é uma pérola da Bíblia. Um ser humano capaz de altercar com Deus de forma pura e franca, direta e provocante. No fim Deus lhe dá razão (42,7).

“Não se espelham os traços de Jó no semblante do próprio Jesus, que se sente abandonado por Deus, pelo pai, e não somente na cruz? Para nós, cristãos, o mundo ainda não está em ordem, também nossas queixas são emudecidas somente na última manhã de Páscoa”.


Para ler:

VV.AA. As raízes da Sabedoria. São Paulo: Paulinas, 1983.
GRADL, Felix; STENDEBACH, Franz Josef. Israel e seu Deus: Guia de Leitura para o Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2001.

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