terça-feira, 3 de setembro de 2013

Estudos em São Lucas para o Mês da Bíblia

Diante da necessidade de se pensar o outro e a outra, achei por bem refletir sobre Lucas 10,29-37. (Uso uma tradução literal do grego, lendo um breve fragmento da parábola):

"30 Prosseguindo Jesus disse: “certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em meio a ladrões, os quais não só o tendo despido mas também tendo lhe dado golpes retiraram-se deixando-o semimorto. 31 E por acaso certo sacerdote descia naquele caminho e vendo a ele passou pelo lado oposto. 32 De modo semelhante também um levita chegando no lugar, chegando e vendo passou pelo lado oposto. 33 E certo samaritano 
viajando 
 veio para ele 
 e vendo-o 
compadeceu-se. 
34 E aproximando-se 
atou os ferimentos dele 
derramando em cima óleo e vinho. 
E colocando a ele sobre o seu próprio animal 
conduziu a ele para (uma) hospedaria 
e cuidou dele. 
35 E no dia seguinte tirando dois denários 
deu 
ao hospedeiro e disse: cuida dele, e o que gastares a mais, 
ao retornar, 
eu reembolsarei a ti”. 

Reparem que o sacerdote, o levita e o samaritano veem. Mas o ver do Samaritano é diferente, somente ele vê de fato. Reparem, também, que o samaritano e o levita chegam perto, mas só quem se aproxima é o samaritano. O verbo usado para o sacerdote e o levita significa passar pelo lado oposto. O v. 31 é interessante, o sacerdote passa (sygruria = sem ter combinado antes, por coincidência. Única vez no NT). 

Três dos verbos estão ligados à linguagem médica. Essa sutileza realça ainda mais o dado do cuidado que o Samaritano teve. Pelo texto, podemos notar nada menos que 16 verbos no que diz respeito ao samaritano contra 3 apenas do sacerdote e do levita. São Lucas está nos mostrando o modo raso de ver dos representantes do culto e do ensino. Mostrando que a regra de comportamento é fundamental para ser cristão e isso passa pelo outro, pela dor do outro, dor física mesmo. 

O evangelista não se cansa de mostrar, ao longo do evangelho, onde pode chegar a baixeza humana: a humilhação (tapeinosis) de Maria (1,48); a mulher que chora sobre os pés de Jesus em casa de Simão (7,38); o filho que cuida de porcos (15,15); o pobre Lázaro jogado à porta do rico (17,20); o Filho do Homem que sua sangue (22,44). Até aqui só falamos de sofrimentos reais. Insisto nisso porque o mundo moderno tende a nos convencer que os sofrimentos só são psíquicos, crises de consciência, depressão e desânimo. 

Não desconsidero nada disso, mas essa tendência pode obscurecer a fome real, a falta de casa real, a doença real, o desprezo real que nossos olhos não veem mais. Hoje, no Brasil e em várias partes do mundo, o sofrimento é real, a morte visível e a dor insuportável. Oremos!

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