sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Três mil anos de frases machistas

FERRAZ, Salma (Org.). Dicionário Machista: três mil anos de frases cretinas contra as mulheres. São Paulo: Jardim dos Livros, 2013. 175 p. 

Acaba de ser lançada a obra organizada pela doutora Salma Ferraz, que reúne frases de diversas épocas e lugares do mundo. Salma é formada em Literatura, contista premiada, com experiência na área de Teologia em diálogo com a Literatura. É especialista nos estudos sobre José Saramago, tendo publicado, recentemente, um dicionário de personagens do conjunto da obra deste autor. Atualmente é professora associada da Universidade Federal de Santa Catarina. 

O Dicionário Machista já chama a atenção por seu aspecto gráfico: texto elegante com caracteres de leitura agradável e distribuição dos verbetes de forma clara e bem feita. Ao final, a partir da p.164, conta com um índice de autores, o que facilita o encontro de suas frases ao longo da obra. Por se tratar de uma obra deste gênero, permite que o leitor e a leitora busquem os temas de sua preferência, o que não dispensa uma leitura da capo de toda a obra. As frases que compõem os verbetes aparecem desde o livro bíblico do Gênesis, passando por filósofos como Aristóteles e Platão; teólogos como Agostinho e Jerônimo até chegarem a personagens do cotidiano brasileiro, conhecidos do grande público por serem jornalistas, apresentadores ou atores/atrizes de TV, como Luciana Gimenez, José Simão e Jô Soares. Não estão descartadas, contudo, as frases de para-choque e as letras de funk

Se por um lado a obra permite ver o resultado de um trabalho de pesquisa minucioso, que buscou olhar com atenção este recorte da realidade, por outro, lamenta-se como, ao longo dos séculos, as mulheres vêm sendo vítimas dos mais diversos ataques à sua personalidade. Ataques que são explícitos ou sutis, mas que se configuram como diminuição de sua identidade e ridicularização de sua humana conditio. Salma Ferraz soube aglutinar, nos verbetes, elementos que tocam as mais diversas áreas da vida humana, especialmente no tocante às mulheres. Os leitores encontrarão temas como: beleza, monogamia, religião, maridos, volante e idade. Uma das frases mais curiosas, de autor anônimo, é a seguinte: “A monogamia deixa muito a desejar” (p.107). No mesmo tema, à mesma página, encontra-se uma outra, de Ciro Gomes: “A monogamia é uma violência à natureza do homem”. 

 Ressalta-se, também, a repercussão da obra de Salma pela grande rede. É possível encontrar blogs e sites de livrarias que apresentam e comentam a obra. Os comentários dos internautas se dividem em defesas e novos ataques. Destaca-se uma entrevista concedida pela autora à rádio CBN, em quase quinze minutos de conversa, onde o apresentador destaca, de imediato, uma frase de Jesus no evangelho apócrifo de Tomé, à p.84. A erudição da obra, associada ao bom humor, já são indicativos mais que suficientes para que a obra seja lida e apreciada. Contudo, longe de ser meramente uma leitura de deleite ela convida a uma reflexão profunda sobre a condição da figura feminina no passado e no presente.

Um comentário:

Fatinha disse...

Os trabalhos de Salma Ferraz são sempre ricos e interessantes!! Obrigada pela postagem!!