terça-feira, 14 de maio de 2013

A Ressurreição de Jesus - última Parte

Leia a parte anterior aqui!


Para não esticar demais o assunto, pode-se ter uma primeira conclusão partindo da possibilidade de Paulo elaborar uma lista a partir de dois relatos separados: um que afirmava que Jesus aparecera a Pedro e aos Doze e outro que apareceu a Tiago e aos Apóstolos. Quanto a isso nada saberemos e mesmo assim Paulo teria fontes seguras para discernir a quem apareceu ou não, por enquanto, a dificuldade permanece. O que se pode dizer com mais segurança é que qualquer tentativa de harmonizar Paulo e os evangelhos resulta frustrante caracterizando o aspecto de complexidade das diversas narrativas.

Para Rinaldo Fabris, não estão somente nos textos finais dos evangelhos as alusões à ressurreição de Jesus, mas ela aparece, já, em toda a narrativa evangélica: transfiguração (Mc 9); encontro com os discípulos na noite (Mc 6) e outros. Destaca-se, então, o que já mencionamos sobre o aspecto redacional, catequético e teológico dos relatos.

Para finalizarmos o tema das aparições, um último esforço com o objetivo de clarear alguns pontos. Fabris convida a não falar de aparições, mas de encontros já que o verbo ofté aparece poucas vezes. Gramaticalmente poderíamos observar:

Verbos de movimento: vir, avizinhar-se; aproximar;

Verbos de encontro: pôr-se no meio;

De revelação: mostrar-se; manifestar-se

O enfoque maior é dado menos a elementos visíveis que aos gestos e palavras de Jesus. “O objetivo primário das testemunhas pascais não é dar uma informação sobre a ressurreição de Jesus, sobre o seu corpo e feições de ressuscitado. Não se fornece descrição de sua corporeidade e identidade. O reconhecimento-adoração do Senhor Jesus não se funda na verificação ou constatação física, mas na sua iniciativa e palavra” (FABRIS,312).

Talvez vocês me fariam as clássicas perguntas: como Jesus atravessou paredes? Como comeu com os discípulos? Como Tomé apalpou mãos e lado?

No NT ressurreição não é uma prova para a fé, mas aquilo que a fé apreende em primeiro lugar. Os evangelistas sugerem que o ressuscitado não está mais sujeito às leis do espaço. Isso só acontece mais explicitamente com Lucas e João. Madalena não reconhece, nem Pedro, nem os pescadores, nem os dois de Emaús.

Há uma tendência em Lucas de objetificar o sobrenatural. Por exemplo, todos os outros dizem que no batismo o espírito era como pomba, mas Lucas diz “sob forma corporal”. Assim, embora a compreensão dos dois mais completos narradores (Lc e Jo) seja mais de propriedades físicas do corpo, esse não parece ser o seu real interesse. O que enfatizam é a continuidade corporal entre o Jesus terreno e o ressuscitado.

O apêndice de Mc 16,12 explica que ele apareceu em forma diferente. Como entender isso? O problema do espaço não é só. Vem o do tempo. Para Mt foi exaltado e glorificado antes de aparecer aos onze na Galiléia; para Lc apareceu antes da ascensão; para Jo apareceu a Madalena indo para o Pai. Ficam em nossas mãos a dificuldade dos evangelistas em enquadrar o encontro escatológico com o ressuscitado, e dizem, ainda que o status d’Ele é outro. Note-se as confissões: não se diz simplesmente “vimos Jesus” mas, “vimos o Senhor”. João diz: é o Senhor. As aparições impõem uma visão que envolve a revelação, que vai além da experiência comum.

Conclusões de cunho teológico

É com esse pensamento que abrimos a última parte de nossas considerações nessa noite. Gostaria de repassar o que vimos com o olhar da criança sobre a bolha de sabão.

Com Raymond Brown entendemos que a relação da linguagem do NT para com a verdade é pedagógica, mas não essencial. Sendo assim, é legítimo que a teologia moderna e a crítica bíblica devem contribuir com complementações a esta linguagem para falar aos homens e mulheres de hoje. Isso justifica o pensar teológico e a exegese contra muitos que poderiam constranger o mais devoto fundamentalista tentando ver no NT narrativas de cunho jornalístico, científico ou histórico na moderna acepção dos termos. Como teólogos temos o dever de avisar que a teologia cristã não pode ser moldada pela desconfiança contemporânea em torno do milagre:

“A visão cósmica do mundo moderno não é menos infalível que a visão cósmica do século I – sabe mais a respeito de certas coisas, mas de outros modos é menos inteligente. Nossa geração deve ser obediente, como o foram nossos predecessores, àquilo que Deus preferiu fazer com Jesus; não podemos impor a esse quadro o que achamos que Deus deveria ter feito” (BROWN, 72).

A Páscoa de Jesus nos faz experimentar o doce sabor do infinito e da vida em Deus, diz Urbano Zilles. Passamos a ter a plena certeza de que este mundo velho convive com o Novo pois o Senhor é o Primeiro ressuscitado e inaugurador deste mundo novo. Só assim se entende Jesus como novo Adão e o hoje do paraíso ao assim chamado “bom ladrão”.

É só assim que entendemos, também, o relato da morte de Jesus em São Mateus onde na hora da escuridão e do véu partido os sepulcros se abrem. Está indicada ali, a ressurreição de todos que, na morte com Jesus ressuscitam com ele. No início do evangelho os céus se abrem no batismo de Jesus. No final, os sepulcros se abrem na sua morte. Isso tem ecos fortíssimos no AT: Ez 37,13 “então saberão que eu Sou o Senhor quando tiver aberto seus sepulcros”!

A cruz marca o fim do mundo de morte e de pecado, a ressurreição mostra o início do mundo da vida, de Deus, do Reino de Deus. O agir de Deus começa com o sinal soberano da Ressurreição de Seu Filho. O reino de Deus é ação humana mas não só, isso porque o homem morre e não se ressuscita, é ressuscitado por Deus (BLANK, 87-88).

João Batista Libânio apresenta alguns marcos que nos auxiliam nesta compreensão:

a) o homem todo chega à plenitude da perfeição, na ressurreição;
b) há identidade entre o ser humano que viveu a vida terrestre e o que ressuscitará;
c) a plenitude não é alcançada na morte, mas no fim dos tempos;
d) é Deus quem concede ao homem a vida eterna;
e) da glorificação plena do homem participará o mundo material;


Bernard Sesboué chama a ressurreição de acontecimento histórico por causa das pegadas positivas que deixou na história: testemunho apostólico, movimento de 20 séculos. Se olharmos para o AT, entendemos que o Kabod hebraico indica a glória. Doxa no NT. Isso aponta para o peso de Deus, o volume e a densidade Dele. Sendo assim, posso pensar que a glorificação de Jesus é igualmente densa, pesada, volumosa. Não é algo bebido de um gole só. Os relatos dos evangelhos se esforçam em apresentar algo compreensível, mas esbarram-se nos próprios limites literários e históricos de seus próprios autores. Finalmente, podemos concluir que o processo de compreensão é, também, um processo de sistematização passível de erros e imprecisões várias. É por isso que me sinto como uma criança, a observar o colorido de uma bolha de sabão!


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