sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Ressurreição de Jesus - 8ª parte


7a parte

No que concerne às aparições algumas coisas não podem passar sem serem ditas. Antes de mais nada é preciso avaliar alguns dados dos evangelhos:

Mt: Mulheres (Jerusalém?); os Doze (Galiléia);

Mc: Só promessa (particularmente a Pedro); no acréscimo (16,9-20)uma síntese (Emaús, Madalena e Onze).

Lc: Emaús e os Onze, com menção a Pedro (em particular).

Jo: Discípulos em Jerusalém (sem e com Tomé); sete discípulos (no Lago da Galiléia).

Então: Galiléia (Mt e Jo); Jerusalém (Lc/Mc [final] e Mt).

Nestes relatos, Urbano Zilles nos convida a percebermos que Jesus ganha algumas características interessantes: peregrino/estrangeiro (Emaús); jardineiro e pescador (João).

As reações são as mais diversas:

Em Mt, os discípulos se prostram; em Lc crêem ver um fantasma; em Jo eles se alegram.

“Os textos insistem que pela ressurreição acontece algo em Jesus e que isso provoca a fé dos apóstolos e não vice-versa” (ZILLES, 243). Significa dizer que não é um ato interior psicológico dos discípulos que molda o que estão vendo em Jesus. Este é um ponto fundamental para nossa compreensão contra aqueles que viram um delírio coletivo nas narrativas de aparições. O não reconhecer dos discípulos indica que isso não é fruto de sua fantasia. As testemunhas tentam descrever algo que é indescritível e isso não brota de seus corações, apodera-se deles (ZILLES, 247).

Ainda podemos encontrar nos textos uma nuance gramatical que corrobora enormemente essa afirmação: o verbo grego ofté (passivo) é termo técnico para significar revelação: “Deus deixou ver este Jesus de Nazaré como ressuscitado”. Isso é um feito de Deus que não encontra paralelismo na experiência humana (ZILLES, 243). A construção com o verbo indica: “apareceu a” e não “foi visto por” (BROWN, 87).

Existe, então, continuidade e descontinuidade: continuidade enquanto cruz e ressurreição, ambas no mesmo Jesus de Nazaré. Descontinuidade porque o ressuscitado se apresenta de modo novo.

É assim que podemos vislumbrar o caráter histórico-escatológico da Ressurreição conforme Paulo sugere:

1ª estrofe: Cristo morreu por nossos pecados segundo as escrituras; e foi sepultado
2ª estrofe: foi ressuscitado no terceiro dia segundo as escrituras; e apareceu (ofté)

O que está em negrito corresponde ao histórico, o que está em itálico ao teológico. Da mesma forma como ser sepultado é o acabamento da morte, o aparecer é a confirmação da ressurreição.

Com relação à lista dos que receberam as aparições, a de Paulo é sensivelmente diferente. Gostaria de dedicar não mais que uma página para comentar este ponto a partir da hipótese de Brown.

1Cor 15,3-8

Que apareceu

(1) a Cefas
(2) depois aos doze
(3) em seguida apareceu a mais de 500 irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram.

Posteriormente apareceu

(4) a Tiago
(5) e depois a todos os apóstolos
(6) em último lugar, apareceu também a mim, como a um abortivo.

O texto é bem construído mostrando vivo emparelhamento entre 1 e 4; 2 e 5; 3 e 6. Paulo escreve a carta em torno de 55, então recebera mais cedo esta proclamação já que antes estivera em Corinto (50?). Transmitir e receber são termos técnicos. A tradição pode estar vindo, então, de meados de 30. Mas uma coisa salta aos olhos, a última parte Paulo não recebeu, é dele, ele professa.

É a primeira referência às aparições do ressuscitado. Embora muitos achem que são as aparições que causam a fé na ressurreição, a maioria das formulações mais antigas da proclamação não mencionam aparições:

1Ts 1,10; 1Cor 6,14; Gl 1,1; Rm 4,24; 8,11; 10,9; At 17,31

Voltemos à lista de Paulo: mesmo que não a tenha composto, dependia de fontes. Salta aos olhos que não há semelhança com as aparições narradas pelos evangelistas, conforme já vimos. Estes localizam as aparições em Jerusalém (e arredores) e na Galiléia. Paulo nada diz de locais. Seriam as variações dos evangelhos tentativas dos evangelistas de oferecerem um cenário plausível?

Eles ainda fazem indicações cronológicas: noite do domingo de Páscoa; uma semana depois, etc. Há cronologia na lista paulina? Um detalhe vem à baila e se torna muito importante em nossa investigação: Pedro é mencionado em primeiro lugar. Isso concorda com Lucas: Apareceu a Cefas: É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão! (Lc 24,34)

A prioridade ressaltaria a importância de Pedro na igreja primitiva? Se sim, pode-se ler o mesmo em Mc 16,7: Ide contar a seus discípulos e a Pedro!

Continua...

Nenhum comentário: