terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Os dois Senhores


Mt 6,24



Ninguém pode a dois senhores servir 
Pois ou odiará a um e amará o outro 
Ou se apegará a um e desprezará o outro 
 Não podeis servir a Deus e a Mamon 

O texto está localizado dentro do Sermão da Montanha que, no Evangelho, compreende os capítulos 5-7. Este ensinamento situa-se bem próximo a outros importantes ditos de Jesus neste longo discurso. Dentre eles, os temas da oração, esmola e jejum bem como o ensinamento do Pai-nosso. Está associado, ainda, a outros imperativos que se iniciam com negativas enfáticas:

• 6,5: não sereis como os hipócritas
• 6,7: não repitais palavras sem sentido
• 6,16: não sejais como os hipócritas de ar sombrio
• 6,19: não entesoureis tesouros sobre a terra
• 6,25: não vos preocupeis pela vida

O texto é composto por 27 palavras, no original grego, dispostas de modo bem ordenado como se pode ver. A primeira e a última frases se justapõem assim como as duas internas se mostram paralelas ao mesmo tempo que, incrivelmente, se contrastam.

A primeira frase externa traz a menção aos “dois senhores” (kyriois). De forma semelhante, a última também o faz mostrando explicitamente quem são eles: Deus e Mamon. Mamon é uma palavra de origem aramaica (mamonas: riqueza e posses) aqui personificada por Mateus. Reparem que a primeira frase é mais geral (ninguém pode) e a última é direcionada à audiência (não podeis).

Destas 27 palavras, 8 são verbos sendo que dois deles se repetem nas duas frases externas (poder e servir). O verbo servir não aparece aqui com sentido simples de serviço que, às vezes, pode ser positivo ou até mesmo associado à diakonia, mas aparece com a perspectiva de escravo, servir como escravo, se sujeitar a um senhor.

Nas duas frases internas está a explicação das afirmações externas: com os paralelos contrastantes: odiar X amar e apegar X desprezar. Odiar, aqui, tem sentido de detestar, aborrecer e, no Novo Testamento, aparece outras vezes como, por exemplo, em Jo 3,20: “quem faz o mal odeia a luz”.

Amar é um dos verbos mais caros ao cristianismo. É o agape, ter afeição. Interessante que neste contexto pode ser tanto dirigido a Deus quanto ao dinheiro e, normalmente, é um verbo direcionado a pessoas. É um ponto a ser refletido. O verbo apegar tem sentido de ser fiel, prestar atenção, de modo que se excluem mutuamente, não pode ser conciliado com o desprezo para a mesma pessoa ou para o mesmo objeto.

Isso fica claro com o “não” final do texto. Mateus usa, aqui, a forma ou que é mais enfática, mais incisiva, indicando a impossibilidade. É o mesmo “não” com que os discípulos respondem a Jesus quando perguntados se tem peixe para acompanhar o pão em Jo 21. É o mesmo “não” com que Pedro nega Jesus e o mesmo “não” com que Jesus ensina que seja o vosso sim, sim e o vosso “não”, “não”.

O que este texto tem de breve e de belo tem de denso e de provocativo. Não é preciso espremer tanto as palavras para que se perceba a clareza de suas linhas. Mesmo fazendo uma leitura superficial como essa que vos apresento é possível vislumbrar o quanto a proposta do Senhor é radical e desafiadora, sobretudo, para o nosso tempo.

Nenhum comentário: