sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Não sou profeta, nem filho de profeta": o desafio de profetizar segundo Amós

por Javé Domingos

O ministério profético é entendido, não raras vezes, como algo difícil e desafiador. O que aceita retamente tal ofício deve estar preparado para enfrentar as rejeições, as ofensas e as perseguições advindas dele, mas consciente de Deus está junto com o profeta, por isso não há o que temer (Jr 1, 8). O profeta Amós se mostra como uma figura interessante: vivia em sua pacata Téqua, pastoreando (Am 1,1) e cultivando sicômoros (Am 7,14b). Ao que parece não pertencia a grupos religiosos específicos, mas tem sua “tranquilidade” subtraída pelo eloquente chamado divino: “Vai, profetiza a meu povo, Israel!” (Am 7, 15b). De homem rural a profeta da denúncia. Essa foi a mudança radical ocorrida na vida de Amós. 
 O ambiente em que Amós foi chamado a exercer seu ministério lhe era estranho: o Reino do Norte, precisamente Samaria. Naquele momento Israel vivia uma situação difícil, maquiada com conotações de glória e de prosperidade. Os ricos comerciantes ganhavam muito às expensas do duro e desvalorizado trabalho dos mais pobres (Am 8, 4-8). O esplendor ritual do templo contrastava com a pobreza em que vivia o povo (Am 5, 21-27). Os líderes religiosos viviam uma comprada conivência com os desmandos das autoridades (Am 7, 10). Nesse complexo campo de ação não há como se negar que o múnus profético seja algo tranquilo, mas depreende-se que seja algo desinstalador, desafiador. 

Amós profetiza longe de sua terra. Sua profecia é carregada de denúncias contra as opressões dos poderosos. Mas se a profecia é algo desconfortável ao profeta, também o é ao ouvinte. As denúncias do pastor de Téqua esbarraram na posição privilegiada do Rei Jeroboão e de seu sacerdote contratado Amasias (Am 7,11), que tenta tirar o profeta de cena. No entanto, na pessoa do profeta existe um elemento essencial: ele não segue seus caprichos ou as ordens de outrem. O profeta obedece a Deus, em qualquer circunstância! Amós tem consciência que não é profeta de profissão; sua ocupação é a de pastor e agricultor. Amasias representa o grupo que tinha o religioso como profissão e, por isso diz: “Vidente, vai, foge para a terra de Judá; come lá o teu pão e profetiza lá” (Am 7,12). Isso desencadeia a ira do profeta, expressada no título deste artigo, porque onde a profecia agrada aqueles que remuneram o profeta, vê-se perpetuada a opressão e a corrupção. Amós representa a autenticidade da Palavra de Deus, que nem sempre agrada, mas é cortante e penetrante (Hb 4, 12-13), Palavra do anúncio e da denúncia. O ser profeta é desinstalador, a Palavra de Deus é incômoda. O profeta é o homem da verdade, que provoca reações diversas e adversas. 

O mundo de hoje carece de comprometimento com a verdade, carece de profetismo autêntico que anuncie a verdade e denuncie os erros que oprimem as pessoas. Amós revela o protótipo desse compromisso, sendo autêntico consigo mesmo e com sua missão de profetizar, mesmo que esta missão lhe seja causa de renúncias (profissão, casa, família) e problemas. O mandato “vai, profetiza a meu povo” continua sendo o grande apelo aos cristãos, que devem ser empenhados na missão de anunciar a Boa Nova da salvação e denunciar todos os sistemas que impedem que esta salvação seja realidade na via das pessoas de todo o mundo.

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