quinta-feira, 15 de novembro de 2012


Ao longo da idade média a fé recebeu certa definição de cunho altamente intelectual e racional. Isso se deveu, sobretudo, a Santo Tomás de Aquino que assim pontuou : “o ato do intelecto que assente à verdade divina, sob a influência da vontade movida por Deus mediante a graça.” (II. II. q. 2a .9). A Reforma protestante não se pautou muito sobre este prisma, considerou a fé como ato de confiança. A Bíblia, por sua vez (e que é muito anterior a todas essas definições), tem suas próprias considerações e definições a respeito. Tais considerações não são tão racionais (entenda-se aqui o significado de racional). Assim, é bem mais ampla (a fé da Bíblia) que a definição tomista.

A raiz da palavra hebraica ’ămānâ, no Antigo Testamento, designa firmeza e solidez. Daí é um passo para que o termo sugira um compromisso de fidelidade. Para alguns exemplos, é bom ver Ne 9,38 (10,1).

Há um longo trecho, no Novo Testamento, em que a fé de alguns personagens bíblicos é colocada em relevo e, por isso, exaltada (cf. Hb 11). Além disso, essa mesma carta traz a sua própria definição do que seja a fé (11,1). Não há como pontuar diretamente - e com detalhes rigorosos - uma definição da fé. Isso se deve ao fato de que as designações bíblicas podem refletir a complexidade das atitudes espirituais daqueles que creem. Quando se trata do vocabulário grego, a questão se complica ainda mais. Contudo, a modo de resumo, o grande exemplo de fé do Antigo Testamento é, sem dúvida, Abraão.

Hoje se diz da fé como um ato de conhecimento de Deus; um conhecimento que vai na direção da experiência de Deus e da sua Palavra revelada, além de seus atos de salvação. Isso faz do ser humano alguém que está (sempre) pronto (ou pelo menos deveria estar) para ouvir com atenção; aberto de coração para aceitar e aprender, receber e obedecer.

O verbo grego pisteuo indica (no Novo Testamento) a confiança. O substantivo pis'tis aponta para a certeza, confiança e crença. Os cristãos somos interpelados a termos a fé em Jesus e em sua palavra. Este é um elemento claro no Novo Testamento. Em resumo, a fé (tanto no AT como no NT) não é um simples ato de confiar ou crer, é algo mais: implica numa aceitação (de uma pessoa) e resposta às exigências que essa aceitação traz consigo.


Bibliografia:

DUFOUR, Xavier-Leon (Org). Vocabulaire de Théologie Biblique. Paris: Éditions du Cerf, 1962.
McKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.
JOÃO PAULO II. Carta Encíclica “Fides et Ratio”. São Paulo: Paulus, 1998.