domingo, 7 de outubro de 2012

Os pobres e a pobreza: reflexões


Os que “andam no vale das sombras da morte” são, exatamente, os pobres. Sobre eles a mão fria da injustiça pesa de modo desmedido. Sobre eles, de forma irresistível, arma a chuva da tarde, em cujos ventos, a casa de suas vidas é destelhada.

Quando visitamos algum pobre um pensamento sempre me vem: é casa do outro, mesmo que construída de placas de muro, esteja. É de alguma forma, uma igreja, um santuário onde minhas sandálias não podem pisar. Por mais que insistamos em promovê-los há uma fronteira importante: a sua liberdade. No coração da cidade, redutos escuros e frios, lama na porta, quartos vazios. Vazios de bens, repletos de crianças. Não conhecem o sentido da palavra “segurança” e esperam no próximo dia, mais do que ninguém.

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, estado de Minas Gerais e morou na favela do Canindé, em São Paulo. Carolina foi mãe de três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima. Ela escreveu vários cadernos sobre o diário da sua vida de catadora de papel que, mais tarde, foram publicados. A obra mais conhecida é Quarto de Despejo. Com tiragem inicial de dez mil exemplares esgotados na primeira semana, e traduzida em 13 idiomas nos últimos 35 anos.

Assim ela disse: “Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles.”

É mulher negra sofrida, é mãe. Hoje, violentadas estão as mães. Violentadas em jeitos vários, mesmo aquelas sem diários, carregam marcas profundas na pele. Já aconteceu com a gente de assistirmos a 3 famílias com 28 pessoas. Em todas as casas somente mães e, o restante, crianças.

A mãe será capaz de se esquecer ou deixar de amar algum dos filhos que gerou?”, se pergunta o profeta e conclui: “ainda que isso aconteça, eu mesmo não esquecerei, diz o Senhor”. Pois sim, já deparamos com mães que confundiam os nomes dos filhos. Mas nesta palavra do profeta, o maior dos acalantos: o Senhor está com eles. Sim, o Senhor está com eles, mas nós, não raramente, não reconhecemos, neles, o Senhor!

E Carolina continua: “Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. Comecei sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida?

Já vimos filhos cuidando de mães. Já vimos casas sob a rua, na cozinha, panelas nuas e dentes limpos nas bocas, como dizia Amós. São Vicente também dizia que, “quando damos esmola devíamos nos envergonhar porque estamos devolvendo ao pobre o que pertence a ele”. E noutro lugar ele ainda fala: “Não temos que avaliar os pobres por suas roupas e aspecto, nem pelos dotes de espírito que pareçam ter. Mas muito ao contrário, se, iluminados pela fé, considerardes os pobres, então percebereis que estão no lugar do Filho de Deus que escolheu ser pobre”.

Nossas ruas e nossos bairros trazem, em seu seio, o sofrimento das crianças, a falta de dignidade das mulheres com suas feridas sem unguentos e seus corpos sem o óleo da alegria. O programa missionário de Jesus, na sinagoga de Nazaré, tem, para os nossos dias, o seu sentido mais profundo e a sua mais clara razão. O Espírito do Senhor está sobre nós para o movimento, para o passo corajoso, e não para a estagnação.

A vida de Jesus é o claro exemplo para o mundo e para a missão de cada homem e mulher. A Conferência de Santo Domingo já ensinava que “descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor é algo que desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial” (SD, 178). Por isso a tua direita deve trabalhar sem que a tua esquerda o saiba!

O Reino de Deus é luta, é conflito; não fosse assim Jesus não o teria dito por medo daquela cruz. O valor do Evangelho se descobre com os oprimidos, com os menos favorecidos e os que vivem na simplicidade do acolhimento ao dom de Deus (PUEBLA, 1147-1152).

Não é preciso desenhar ponto a ponto, passo a passo a situação de tanta gente. Não é preciso clarear com lamparinas incandescentes, quase apagadas, a escuridão das ruas que abrigam seres sem vida e que são chamados de humanos. Não há moldura que sirva para um quadro tão grande de miseráveis e já não há água suficiente para lavar a sujeira imposta sobre a pele dos pobres por um sistema que oprime.

Como também disse o Amós, vendem o pobre por um par de sandálias e indigente por um botijão de gás. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

O anúncio e a prática de Jesus se firmou, como já disse, na fragilidade e na luta pela restauração da dignidade humana. O Reino de Deus é convite e proposta e, onde há homens e mulheres, ele aí está, pede resposta. Onde há sofrimento e opressão, ele se faz prioridade de anúncio e de vivência. Moisés saíu fugido do Egito, saiu sozinho. Mas o Senhor o fez voltar, para sair com outras gentes, é o sinal mais evidente de que vocação só existe, onde alguém grita por socorro. E é assim, então, que o ser humano se associa ao mistério pascal de Cristo (Gaudium et Spes 22).

Dom Luciano Mendes, de saudosa memória, disse assim: “dar uma cesta básica é fácil, contribuir financeiramente também, o mais difícil, porém, é sentir o cheiro do pobre”. É verdade, sobre isso, São Vicente já havia dito, mais ou menos com estas palavras: “deve-se preferir o serviço aos pobres a tudo o mais e prestá-lo sem demora. Se na hora da oração for necessário dar remédios ou auxílio a algum pobre, ide tranquilos, oferecendo a Deus esta ação como se estivésseis em oração”.

Carecem de comida, carecem de abrigo, carecem de palavra. Mas, sobretudo, de respeito porque suas esperanças, nem sempre, co-incidem com as nossas. É como minha família em tempos de roça, como dizia Guimarães Rosa: “queríamos trovão em outubro e a tulha cheia de arroz”, mas não é tudo! O Reino é muito mais!

Com os olhos erguidos para o alto da cruz, o ser humano enxerga-se a si mesmo. Com os olhos sobre a pedra rolada, todos olhamos para trás e percebemos, sem poder explicar, o mistério que nos une. Qual Madalena de manhãzinha, perguntemos ao jardineiro. Mas estejamos bem preparados, para dizermos: Rabbuni!

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