domingo, 22 de janeiro de 2012

Ao redor da loucura: uma reação ao “famoso” texto XXI

De descabidos caminhos contrários que nós, em nossas vidas, fazemos, a trilha do pensamento é, de fato, a que mais impressiona. Se penso algo e digo, depois, “onde foi que parei?”, a mente procura fazer o caminho inverso a fim de encontrar o fio da meada. Mas que caminho inverso é este que não percorre o que, às avessas, deveria percorrer? É assim que nos surpreendemos revendo o que foi pensado e descobrindo coisas e detalhes que não tiveram a devida atenção no curso do pensamento anterior. Enfim, seria possível descobrir, de fato, o fio primeiro da meada? Creio que não!

Nesses meandros do pensamento vai-se muito tempo gasto em refletir o sentido do pensar. Talvez tal tempo devesse, sempre que possível, ser ruminado a contento. Que bom seria, como disse Arthur Schopenhauer, se junto com os livros pudéssemos, também, comprar o tempo para lê-los! É por isso que o cotidiano absorve nossos melhores pensamentos e, aqueles que, com muita peleja (palavra duas vezes presente em seu texto, Rodrigo) conseguimos prender entre os dedos, ficam devendo àqueles que nos escaparam entre uma vigília e um amanhecer. Mas há casos, no entanto, que (creio eu) muito (senão o todo) desse pensamento conseguimos captar. Um exemplo? O texto XXI de Rodrigo Alvim. 

Se venho falando do pensamento e suas artimanhas, não quero contrapô-lo à loucura. Aqui, também, não se está escrevendo uma tese (por Deus – estamos num blog... gostei disso!) e o objetivo é nada mais que tentar apanhar algum pensamento que se nos está escapando. Claro está que, nesse próprio exercício, estão os dedos digitando e sabe-se que, das mãos à cabeça (ou vice-versa) há um abismo tamanho que não se pode transpor. Além disso, nesse caminho vertical sempre se encontra, no meio, um coração!

Descobri que a palavra loucura só existe em português e em espanhol (loco). Parece advir do árabe (tonto, bobo, tolo). Que surpresa agradável: todos somos assim! Se aprofundarmos no grego, há uma palavrinha curiosa e que faz (muito) parte do nosso supracitado cotidiano: mania. Isso mesmo, como dizia o Aurélio, ato ou efeito de ser louco ou demente. Mas isso quem diz é o Isidro Pereira, um linguista português. 

Enfim, não quero reescrever um outro texto para ler o seu texto, Rodrigo, mesmo porque seu texto é claro por si mesmo. No entanto, em se falando de clareza, claro está que perto de loucura sempre se fala de lucidez, obscuridade e sombra. Essas metáforas (que não poderiam existir antes do Fiat Lux), ainda povoam nossas mentes e, muito depois de nossa luz ter-se apagado, elas ainda vagarão pela terra até que se extingam completamente. Assim sendo, outros Nietzsche’s, Van Gogh’s e Estamira’s ainda caminham entre nós e nos encontramos todos continuamente, nos cumprimentando e desejando uns aos outros: bom dia!

Um comentário:

Rodrigo Rodrigues Alvim disse...

Muito obrigado, meu amigo Altamir, por dar “importância textual” (e que texto esse seu!) àquilo que escrevi, mantendo assim o nosso diálogo.

Por vezes, é surpreendente ver que nos sentimos mais respeitados por uma “reação” (ainda que negativa – embora não seja o caso aqui) do que pela ausência de qualquer manifestação.

Na verdade, sempre digo que a nossa cultura só alcançará merecida atenção alhures quando, antes e, em seguida, por hábito, nós mesmos, que a somos, passarmos a frequentarmo-nos uns aos outros, realimentando em cada o interesse por se manifestar, sem temor, pelos diversos modos possíveis e já constitutivos dessa mesma cultura (sem os entraves da espera de direitos autorais, melhor remuneração ou pontos em meios de divulgação tradicionais e, normalmente, destinados apenas a público muito específico).

Van Gogh não se destacou por obras suas vendidas em vida. Aliás, vendeu apenas uma. Nietzsche não alcançou fama como professor...

Por fim, só mais uma nota “provocativa”. A influência de perfis como o de Nietzsche e de Van Gogh em nossa cultura atual é de tal envergadura (e apreço, de um modo geral), que penso ser inevitável não admitir em nós mesmos semelhantes perfis, cuja loucura a que nós próprios a eles atribuímos não escapam do reflexo desse espelho que assim nos revela, desvela ou desmascara. Se a loucura, da qual estamos a tratar, é doentia, não são somente eles que padecem desse mal. Caso aposto, isto é, não se tratando de uma patologia, que razão há para temermos o mesmo fim? Não falo da loucura que, por último, os imobilizou, mas, muito pelo contrário, falo daquela enquanto crescentemente os notorizou pelas suas obras e os fizeram atuar para além do seu próprio tempo.

Na amizade, abraços!