terça-feira, 12 de junho de 2012

O Logos joanino

Juan Mateos e Juan Barreto

Logos significa ao mesmo tempo palavra e projeto. Há aqui uma sutileza muito interessante: o grego de Jo 1,1 diz: en pros ton theon, ou seja, a Palavra era para Deus, se dirigia a Deus. Isso é mostrado pelo uso da preposição pros. O que se nota, a partir daí, é que no Primeiro Testamento a palavra de Deus se dirigia aos homens, aos profetas em particular: “Aconteceu a mim a Palavra do Senhor”. Traduzem os autores: “no princípio já existia a Palavra e a Palavra se dirigia a Deus e a Palavra era Deus”. Note-se o verbo no imperfeito: se dirigia. Indica continuidade e não elemento ocasional, precedência da palavra escrita. Comumente se traduz: o verbo estava com Deus.

Há um contraste subjacente a tudo isso: a Palavra no singular contrasta com as palavras múltiplas da Lei, da Torah. Em particular as dez palavras (debarim). É uma única palavra que faz frente às palavras da Aliança. Fica evidente o tom de correção joanino e sua clara discordância com muitos dos aspectos dessa lei como se lerá em sua narrativa. João indica, então, a Palavra divina e absoluta que relativiza todas as outras. É assim que entende que aquelas que foram dirigidas aos homens na Lei e nos Profetas são expressão parcial de sua plenitude. 

Xavier Leon-Dufour

É um dos comentários mais completos sobre o quarto evangelho. Dufour foi um dos exegetas que mais contribuiu para a leitura joanina. Ele dedica longas páginas ao estudo do termo Logos no início do evangelho de João. Alude às possíveis relações do uso de Logos associado ao uso que Heráclito fazia do mesmo com base no estoicismo. Apesar de esta não ser uma nuance que simpatizasse aos cristãos do primeiro século nada impede, segundo, Dufour, que não fosse sensível uma leitura comparativa. Isso abre novas chaves de compreensão que carecem de aprofundamento.

Ocorre, aqui, no entanto, o perigo de ficarmos no raso da especulação sem a competência necessária para aprofundá-la. Sendo assim, basta, por ora, que assinalemos a esfera do contexto joanino que tem como pano de fundo a leitura do Primeiro Testamento e do judaísmo da época. Dufour avisa, também, que num primeiro instante, João parece não estar ainda dependente desses contextos. Aí entra um caráter de novidade.Dufour questiona, ainda, a ideia de movimento da preposição pros como única forma de tradução. Mas como tratamos do aspecto da palavra, fica a indicação de que o melhor intérprete de João é o próprio João, como diria Maldonado.

MATEOS, Juan; BARRETO, Juan. O Evangelho de São João: Análise Lingüística e Comentário. Exegético. 2 ed. São Paulo: Paulus, 1999
LÉON-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho Segundo João I. São Paulo: Loyola, 1996, especialmente as páginas 37-76.



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