quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O CULTO OCULTO A DEUS


Texto gentilmente cedido a Meus Rascunhus por Lúcio Marques


Aeroportos. Um espaço teologal curioso. Nunca entendi no seu aspecto arquitetônico laico sua pretensa total isenção escatológica posto que antecedem o se poder afinal alcançar o céu. Não falo aqui dos jardins do Éden, mas do céu enquanto rota de navegação aérea. Aerovias do devir, sendas que viajam do nada ao ser, hoje a mais parecerem que do ser ao nada. Tamanho é o descontentamento com os atrasos, os serviços, os espaços das poltronas, as malas perdidas...

Em que a viagem passa a ser um equivoco, um desafeto, um embuste, um pesadelo.
E há ainda a iminência do perigo. Essa é a realidade circundante.Apesar da alta tecnologia que envolve os aviões certamente os humanos, por decerto, ainda temem o viajar neles. Ninguém fica apreensivo numa rodoviária antes de embarcar, mas num aeroporto o medo, esse mal se dissimula em meio aos seus aços e vidros. Conheço-os bem, trabalhei 13 anos em um, viajei transitando por dezenas deles.

O comportamento dos passageiros permanece digamos: aerofóbico, por vezes neurastênico, arredio, nevrálgico, quando entregues ao estupor da entrega das suas vidas às aeronaves. O temor da morte. Ora, para o homem por suposto ao céu se sobe, dele não se quer despencar.

Experimente passar algumas horas num aeroporto observando as pessoas, o medo de voar é onipresente, observe ainda as suas rotas de fugas. Panis et circensis, eles oferecem ampla comida e diversão, fast food e free shops, e se calhar o aproveitamento de espaço para comunicação visual é mesmo um tanto sofista, a quererem convencer as pessoas a não levarem a sério a sua privação de espaço e a provação do medo incitando-as tão somente a comprarem, gastarem, deixando-as ilhadas semióticamente num espaço pessoal exíguo.

Continua

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