segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O CULTO OCULTO A DEUS - Última Parte

Texto gentilmente cedido a Meus Rascunhus por Lúcio Marques


O estranhamento, o desconforto que se vê a todo momento em cada semblante, é notório. Há aqueles que afogam o seu medo num comprimido, outros no vinho, In vino veritas, e ai é que parecerão ainda mais atordoados. Há quem não viaje se no avião há freiras ou padres vestidos de negro, dizem que pelo mau agouro que essas vestes seriam umas sinonímias de corvos e urubus, que danificam turbinas. E conheço quem ao ver um padre ou uma freira a bordo sente-se redimido, aliviado, salvo!!! Uma garantia de boa viagem e just in case num post mortem após um sinistro o acesso ao céu. Há quem reze baixinho na decolagem e no pouso, mas o fazem com tanta prudência de não serem vistos que jamais confessariam que o fizeram, mas em geral os baais dos passageiros a evitarem o pânico hoje são outros.

Os free shops são o must do canto das sereias, uma total rendição á uma nova ilusão.
O pouso aplaudido desembarca as tensões coletivas reprimidas na viagem, o ganhar-se o solo é sempre uma segurança, mas o desembarque pode ser o portal do inferno: são filas, controles, malas desaparecidas, violadas... E na maioria das vezes o destino também o será haja vista os tantos imprevistos que são todas as viagens. Choques culturais, insatisfações com o hotel, e tudo o mais, até se deixar escapar um “Deus me livre!” em que Deus é lembrado.

Remete-se a Ele mas enfim está faltando mesmo Deus nas viagens, com certeza. Foi-se o tempo que dizia-se: Vá com Deus!, Fique com Deus! Hoje diz-se: Leve o seu cartão de crédito, fale no seu celular a bordo, compre dois disso e leve três disso!....

E por falar em desembarque João Paulo II tinha a grande humildade de beijar o solo de qualquer terra que visitasse, alguém mais faz isso? Húmus-lissimamente. A própria noção de paraíso de férias, é um artifício comercial que só funciona no antes de ir-se ou de chegar-se ao lugar. Engodos. Os mais abonados tem ainda uma espécie de paraíso com o luxo refrigerado das salas vip separando-os do purgatório que os outros passageiros terão de purgar lá fora. Divinas providencias das empresas aéreas, excludentes se se paga mais pela viagem.

Cidades com o sagrado ou nomes de santos em seus nomes são recodificadas numa laicização estranha ao usuário: Quem haverá de supor que LAX tal como se etiquetam as bagagens é o Pueblo de Nuestra Señora de Porciuncula , reina de Los Angeles, que GRU é São Paulo, SFO é San Francisco? A grande lição da viagem é que o viajar compreende o se levar Deus consigo,ou pelo menos um almejar-se encontra-lo no destino. Leva-se todos os pecados, todos os enganos, num excesso de bagagem individualista, e no entanto, Deus só cabe na viagem nas horas de medo que rondam o passageiro nos aeroportos ou nos aviões.

Bagagem de mão inconfessável todavia Ele é acionável nos momentos de embarque, turbulência, tempestades...perigos. Para mim o espaço teologal que existe nesse campo é instigante, observo essa noção de um Deus utilitário, aquele que inventa o homem ao invocá-lo quando dele precisa, e também a Deus que leva e traz os homens nesse anonimato em que é invocado, tão presente nos aeroportos e nos aviões. Espaços que o negam, mas quiçá um onde Ele é tão espreitado e solicitado quanto o é nos templos.
Na surdina assim ele afasta o perigo, promove a vida todo dia...

Aeroportos deveriam ter altares, espaços em que toda a gente deveria explicitar a sua comunicação com o divino, seria a fé por fim ali materializada, visível, por enquanto são espaços infiéis. Onde o culto a Deus parece envergonhado. Ou o que é pior: se é invocado é num aspecto meramente utilitário.E quantas vezes é invocado num aeroporto e num avião!!! Ao menos em quantidade se assemelham aos templos portanto são um espaço teologal inquestionável.


Um comentário:

Anônimo disse...

PORQUE SERA' QUE A OS HOMENS TEMAM EM ACHAR QUE DEUS PRECISA DE UM APORTE JURIDICO.

QUANDO VOEEI PELA PRIMEIRA VEZ, LOGO APOS A DECOLAGEM, PENSEI:

O QUE EU TO FAZENDO AQUI?

DEPOIS COMPREENDI E PERCEBI QUE NAO CORRI O RISCO DO SONO AO VOLANTE, NEM DAS IRRESPONSABILIDADES DOS MOTORISTAS.

GRACAS A DEUS EXISTE OS AVIOES, E OS PASTORES NAO INVADIRAM OS AEROPORTOS PARA PREGAR, PORQUE AINDA ACHAM QUE, SO' VIAJA DE AVIAO QUEM TEM DINHEIRO.

AFINAL SEUS MINISTEROS SAO FINANCIADOS PELO DESESPERO ALHEIO, FILA DO SUS, JUROS BANCARIO E POR TEOLOGOS MERGULHADOS EM SUAS DIVAGACOES FILOSOFICAS, BEM DISTANTES DA REALIDADE HUMANA. DEIXANDO ASSIM, SUAS OVELHAS SEREM ENGOLIDAS PELAS ALCATEIAS.

PORQUE AR NO ESTOMAGO PARCEIRO, E' OSSO DURO DE ROER.