sexta-feira, 15 de junho de 2012

Uma proximidade distante




Gênesis 3 é um texto dialogal. Um texto rico em sutilezas e propício para um fazer literário. O fazer, aliás, é um verbo espalhado nestes primeiros capítulos genéticos tendo como seu grande sujeito, Deus! É Ele quem faz (āsāh) o firmamento, faz os dois luzeiros, faz as feras, faz o homem e faz sua “auxiliar”. Há muita coisa nessas linhas que precisam ser resolvidas. Façamos isso por partes. Fazer é um verbo simples. Muitos ficaram mais preocupados com o barah (o criar usado apenas para o ato divino no primeiro capítulo). Barah, sim, é mais raro neste começo, mas āsāh não! Nesses primeiros capítulos, barah está ligado à criação do mundo e à criação do homem. Barah não se perde em coisas menores, mas encabeça as grandes. Talvez o uso do āsāh nos ajude a ver que existe um outro degrau por onde o criador desce até suas criaturas.

Falando em descer, Gn 3 mostra, de modo magistral e único nas Escrituras hebraicas, a incrível proximidade de personagens. Muitos estão envolvidos neste acolhimento hospitaleiro, nessa verdadeira oikoumene, isto é, casa comum. De proximidade em proximidade o texto vai se construindo e convidando seus leitores a se aproximarem também. A primeira personagem mencionada é a serpente e esta se aproxima da mulher por algo inesperado: a palavra. Ela “disse”, ela diz, ela fala. Isso não surpreende mais o leitor porque se acostumou, mas quem leu isso pela primeira vez deve ter ficado bastante surpreso. A palavra aproxima. Em que língua teria falado a serpente? Nunca saberemos. A palavra aproxima e distancia e isso se verifica neste relato. A mulher aceita a proximidade da serpente. É tanto que “responde”. Res-ponder é promessa de voltar, é cumpliciar, é dar crédito ao que foi perguntado, ao que foi indagado, mais ainda, ao que foi dito. É assim que a mulher se comporta: ela se volta para a serpente.

A proximidade tem a ver com comida. Fala-se de fruto, de árvore, de jardim. Mas é uma proximidade distante. Há uma árvore em especial e que, por ser especial, distancia. A completa distância é a morte, a distância de tudo: do fruto, do outro, da vida. O homem nem entrou em cena, ainda [será?]. Deus nem entrou em cena, ainda, e grandes temas já povoam o diálogo de uma “ingênua” mulher e de uma centrada serpente. A mulher toma do fruto e come e dá ao “seu homem”, mais literalmente traduzindo. O latim da Vulgata é bem assim: “viro suo”. Não come sem antes “ver” que este fruto é formoso, bom e desejável. Aqui uma surpresa: o relato diz que o homem estava com ela, indicado pela preposição ’îm no relato. Esta preposição indica proximidade, indica a cumplicidade de que falamos acima. É tão forte esta realidade que os dois se percebem nus.


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