sábado, 7 de julho de 2012

Teologia bíblica: algumas reflexões IV



Há, ainda, outro ponto com o qual quero ocupar-me nestas linhas tênues: aquele que une Bíblia e Literatura. Nas últimas décadas houve uma considerável volta às fontes de tradições orientais para elucidar reflexões e bases do pensamento ocidental. Dentre os tantos pontos que surgem, neste sentido, não é menos relevante o interesse que a tradição bíblica tem despertado no mundo dos textos comparados. Junto a isso aparecem as próprias qualidades literárias destes mesmos textos bíblicos que fazem com que eles avancem séculos adentro não mais como objeto de arqueologia mas com a força e a vivacidade de suas narrativas. Estas narrativas, complexas e refinadas, podem ser estudadas com as ferramentas modernas da crítica literária.

Dentre as diversas possibilidades de abordagem, a análise narrativa figura como indispensável na aplicação em textos bíblicos uma vez que considera os estilos, as formas e as intrincadas constituições textuais revelando sua trama e norteando elementos da cultura ao redor dos mesmos.
Ressalto, então, a importância da Bíblia como texto paradigmático para a cultura ocidental e como fonte de não poucas aproximações literárias. Na literatura bíblica é perceptível como o narrador não se deixa restringir pelo tempo e espaço, mas move-se com extrema liberdade e conduz o leitor por caminhos deliberadamente preparados. Ele guia a leitura, faz sugestões e “abre” os olhos de quem lê para elementos ou detalhes que, eventualmente, não foram percebidos. Estas observações são fundamentais para os que lêem os relatos bíblicos: implica na noção de que o texto não é inerte, neutro ou ingênuo, mas vivo e eficaz (Hb 4,12).

Ignorar esta realidade literária é meio caminho para uma leitura deturpada ou carregada de pressupostos. Acrescento, também, o fato de que a formação do texto da Bíblia não foi de um fôlego só. Ainda repousa sob o véu da incerteza o lugar de suas grandes coleções textuais, a sua origem e seu desenvolvimento. Em nível de história, há certo consenso de que o séc VI a.C. pode amparar grandes redações deste texto e ser, ao mesmo tempo, a mola que impulsiona a gênese de outros tantos. Com isso estamos na época persa, depois de 540 a.C. Por esse tempo, estariam nascendo alguns dos que serão grandes clássicos da literatura hebraica conhecida como o conjunto da Torah e dos profetas e, mais tarde, os livros de Jó e Eclesiastes, dentre outros.

Continua ...

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