sábado, 30 de junho de 2012

Teologia bíblica: algumas reflexões

Nos últimos anos, a experiência de sala de aula tem me feito colocar algumas questões. Devo dizer, no entanto, que não só a experiência de sala de aula, mas o trabalho junto às comunidades em cursos de introdução e estudo mais aprofundado sobre a Bíblia. É imperativo, para lucro das linhas que se seguirão, fazer algumas destas perguntas que rondam minha mente, como um espectro, de tempos em tempos: o que se entende quando se fala em Bíblia? Qual a compreensão subjacente ao ato de se abrir estas páginas numa leitura acadêmica ou litúrgica? Qual o peso que se dá à questão de autoria dos textos bíblicos? Em que medida se leva em conta o sitz im leben (lugar existencial) destes textos bem como a cultura e a geografia nas quais eles estão mergulhados? Qual a relação entre Bíblia e Literatura? Por que razão ainda há desconforto no que tange ao trato sobre a relação entre Antigo e Novo Testamentos?

Estas são as primeiras pontas de iceberg que aparecem neste oceano. No entanto, outras aparecerão à medida que nossa embarcação avançar em águas mais profundas. Creio que uma das marcas deste ensaio seja a deficiência de suas linhas mas, ainda assim, é melhor que nada.

Sem elaborar nenhum critério de resposta mas escrevendo livremente sobre o que foi colocado acima creio que a questão de autoria ainda bate fortemente quando se aborda o texto bíblico. Significa dizer que muitas pessoas se preocupam com o fato de o texto ser escrito por esse ou por aquele autor que, se contradito, poderiam vir a perder sua fé. Já há muito nenhuma pesquisa séria defende a tradicional atribuição da Torah a Moisés, a Sabedoria a Salomão e os Salmos a Davi. Isso porque já se entende que eles podem estar no fundo como patrocinadores destas obras, mas dificilmente como autores da forma como hoje se entende um autor. Parece haver um desconhecimento – e tomo os evangelhos como exemplos – que por detrás de cada nome (Mateus, Marcos, Lucas e João) existe um vulto muito grande de testemunhas e vozes que, não raro, soam dissonantes na superfície do(s) relato(s) recebido(s).

Parece haver uma cobrança algo exagerada como se a pena destes escritos fosse umedecida num único tinteiro. Desconhece-se o processo formativo dos textos, os relatos de viagem, os testemunhos recebidos e que, nem sempre, são coerentes. A contradição é possível porque é plural o número de vozes por detrás das narrativas. Para olhar superficialmente, basta notar que cinquenta por cento dos evangelistas contam a infância de Jesus (Mateus e Lucas) e os outros cinquenta iniciam a narrativa já com seu ministério (Marcos e João). Então fica bastante claro que esta é uma questão deveras relativa para ocupar tão fortemente algumas acaloradas discussões. Com isso não estou dizendo que são “menos” evangelho, mas chamo a atenção para o fato de que estas narrativas (as da infância) não são, também, uma pregação de Jesus.





2 comentários:

Marina disse...

Aposto que por detrás de "Marcos, Lucas, João e Mateus existiram muitas mulheres !!! (rs)

Rodrigo Rodrigues Alvim disse...

Caro amigo!

Apesar da crescente resistência hodierna a quaisquer teorias hermenêuticas (a todas as “regras” de interpretação), esbocei, certa vez, a você, uma tese e seus imediatos desdobramentos. Deixei-os para dar-lhes contornos mais fortes depois - um depois que nunca veio. Agora vou retomá-los como lenha ao fogo do nosso diálogo:

TESE:

O texto tem um sentido, que o faz, precisamente, um texto.
O texto tem um sentido: aquele que veicula (seu motivo-mor).

DESDOBRAMENTOS:

1), o autor que possa nos interessar é somente todo ele enquanto seu texto e nada mais.

2), o texto é, por princípio, claro. Assim, tão-só quando acidentalmente não o consegue ser é que nos cabe, a rigor, o exercício hermenêutico.

3), se um texto nos parecer ininteligível, concluímos (reiniciamos) por uma dificuldade nossa de interpretação e não por uma incompreensibilidade do texto.

4), há de se precaver contra toda tendência de se imputar ao texto sentido que lhe seja exterior (sobretudo o nosso enquanto seus leitores, “con-textos” diversos).

5), sobretudo a partir de (1) e (4), procuremos o sentido do texto para dentro dos limites do próprio texto, descobrindo a relação de umas de suas partes com as demais (“leituras paralelas”).

6), por (5), visa-se – mas, efetivamente, apenas visa-se – ao seu sentido completo (uma vez que o sentido passa pelo todo – e o todo é horizonte que se busca, mas nunca se chega); do sentido do texto, apenas nos aproximamos; em sua completude, ele está para sempre perdido para nós. Daí, nunca se pode pretender uma última leitura de um texto, uma última palavra.

Grandes abraços!