quinta-feira, 5 de julho de 2012

Teologia bíblica: algumas reflexões III



É comum, ao longo de um curso sobre teologia bíblica, que uma pergunta se levante: será que os evangelistas queriam dizer exatamente o que o exegeta sugere? Creio que é uma questão insolúvel quando se aborda o texto acriticamente, sem nenhuma predisposição para uma verdadeira leitura. Caracterizo tal falta de predisposição como uma preguiça intelectual. É claro que não se pode chegar à psique do(s) autor(es) mas é bastante seguro afirmar que sua escritura deixou pistas muito fortes no modo como a tessitura de seu texto – perdoem-me a redundância – foi elaborada.

Cabe, assim, a nós leitores, nos debruçarmos sobre estas pegadas para aproximarmo-nos, o mais possível, do que teria sido aquela intenção original. Se não se pode falar da intenção do autor, pode-se, ao menos, falar da intenção do texto. Esta querela se liga a uma outra que é, exatamente, a dificuldade de se ler o texto. Alonso Schöckel já dizia que “não é difícil ler, difícil é saber ler! Deixar de ser analfabeto não é saber ler” (SCHÖCKEL, 1986). Para ele um slogan se repete “a Bíblia pertence a outra cultura”. Esta cultura, às vezes, é até apelidada de “primitiva”. Mesmo exegetas corroboram estas afirmações. Qualquer obra importante requer tempo e esforço para abrir-se ao leitor, sob pena de cair só na pele da narrativa. Desta maneira, a leitura apressada pode contribuir bastante para o “suicídio do pensamento” (GRILLI).

Continua...

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