quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quinta-feira Santa


Refreei meu cavalo na descida pedregosa já divisando a pequena cabana logo abaixo. Dela não vinha mais que uma luz bruxuleante nas primeiras horas da noite. Ao pé de um fogão à lenha encontrei sentado o velho Jerônimo. Seus cabelos brancos escorriam sobre o rosto surrado pelo tempo. Apenas levantou os olhos e me indicou um tamborete, enquanto me cumprimentava. Ajeitei-me no canto da cozinha a fumar meu cigarro enrolado. Após longo tempo de silêncio, Jerônimo me disse:

“Foi assim que aconteceu. Eu fui à vila fazer umas compras e voltava tarde da noite para casa. Quando subia, à cavalo, a Serra dos Boiadeiros me aconteceu algo que nunca mais esqueci. Ao virar a curva dos macacos eu vi, sobre um cupim, um gato muito branco. Seu pêlo de tão viçoso refletia a luz da lua. Eu e meu cavalo o vimos ao mesmo tempo porque ele refugou por um instante e ficou indócil sob as rédeas. Ocorreu-me, então, fazer algo (pois nunca gostei de gatos) de que até hoje me arrependo. Estiquei meu chicote longo e girei-o por sobre os ombros. Ele assoviou no ar silencioso da noite e lambeu as costas do gato. No instante em que tocou o animal o chicote incendiou-se e aquele fio de fogo deu várias voltas no ar. Quando recolhi o chicote ele veio por sobre mim clareando a estrada ao meu redor. A partir daí não vi mais o gato, mas aquele risco de fogo cruzou os ares e pousou na garupa do meu cavalo. Esta foi uma das maiores emoções que senti na minha vida. Era como se duas mãos peludas me envolvessem as costas e cravassem unhas pontiagudas na parte interna dos meus braços. Os cabelos que agora vês tão brancos até aquela hora eram negros como a noite. Contaram-me que no dia seguinte o cavalo pastava, ainda, com os arreios no lombo ao redor da minha casa. E eu, como se tivesse chumbo nas pernas, não me levantava da cama”.

Com o rosto suado e pernas trêmulas, despedi-me de Jerônimo. A lua ia alta no céu enquanto eu ia embora, à cavalo. Era uma quinta-feira Santa...


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