quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Narrador

BENJAMIM, Walter. “O Narrador”. In: Os Pensadores. Vol. XLVIII. São Paulo: Abril Cultural, 1975, 63-81.


O Narrador: observações acerca da obra de Nicolau Lescov


O narrador está distanciado no tempo. Mesmo a apresentação de Lescov como tal não o aproxima, mas o distancia ainda mais. A isso se acrescenta a gradativa incapacidade de narrar que os tempos atuais testemunham. A principal causa dessa constatação é o valor que as experiências perderam. É dizer que experiências reais não mais estão sendo narradas e esvaziam, então, a força da narrativa.

A oralidade aparece como elemento fundante das narrativas. Desde os que viajam aos que permanecem em determinados lugares, a oralidade tem caráter extremamente relevante na narrativa. Dois modelos estão presentes: o do marinheiro e o do agricultor. Também os artífices medievais tem importante parcela de contribuição na arte de narrar.

As constantes viagens de Lescov permitiram um largo conhecimento da situação do seu sitz im lebem russo. Isso foi um importante emblema de sua narrativa como marcas que permaneceram na mesma.

Um elemento que aparece em muitas narrativas é o interesse prático que elas despertam em muitos dos seus autores. É dizer de indicações para a agricultura no seu cultivo ou dos problemas da iluminação a gás. Além desses, outros surgem com não menos importância na arte narrativa, entre eles, o conselho que pode transmitir oralmente uma moral.

O advento do romance, do qual o primeiro exemplo é Don Quijote, é sinal evidente da decadência da narrativa. Este não procede e nem provoca a tradição oral. O romance, contudo, não floresceu com rapidez nos círculos burgueses, mas houve certa demora. Ele sempre buscou no arcaico, alimento importante para sua vitalidade. Mesmo assim, evidencia-se, também, a informação como elemento ameaçador que leva o romance a uma crise. Ela substitui (?) a narrativa, tudo é apenas informação.

Lescov busca nos antigos os principais elementos que garantem suas narrativas. O exemplo de Heródoto (primeiro narrador dos gregos) em suas Histórias é norteador desta compreensão. A concisão das estórias permitem sua fixação. A narrativa por demais ornamentada tende a se afastar da memória. Histórias narradas são para serem contadas depois e se não são guardadas, perdem sua razão.

A narrativa está presente nos círculos mais diversos mas não se prende a transmitir o seu conteúdo. A experiência do que se vive e vê fica impressa no narrador que a transmite na narrativa. Assim, esta trará sempre a marca do que narra. Esta arte é apresentada por Lescov em paralelo com o ofício artesanal.

O tema da morte não foge da arte da narrativa. Ao longo dos tempos, vai sofrendo mudanças importantes que incidem diretamente sobre a narrativa mesma. A vida vivida, que é a matéria de histórias, assume formas diferenciadas quando passam pelo crivo do moribundo. A morte confere autoridade ao narrador. A morte “ronda” o narrador como elemento capaz de oferecer não poucos critérios para a confecção da narrativa.

A crônica aparece como indicativo interessante da própria história. O cronista medieval foge da carga da explicação lógica e da comprovação documentária quando se fundamenta numa história da salvação imperscrutável em sua narrativa. O narrador se torna, então um cronista de forma diferente.

Outro tema de grande relevância é a noção de recordação. Permite perceber a rede que envolve todas as histórias. Percebe seus liames. Dá à narrativa um caráter artístico. A memória liga-se ao romancista eternizante, mas a recordação conduz ao narrador interessante. A primeira indica os passos do herói, da viagem ou da luta. A segunda, alude a muitos eventos esparsos.

O romance traz consigo a luta contra o poder do tempo. O ser humano no mundo, na existência, é o centro onde gravita o romance. A estória coloca o leitor na companhia do narrador. No caso do romance, tem-se um leitor solitário. Este procura no romance os personagens que aludem à existência, ao seu sentido em si.

O narrador de maior envergadura tem seus assentos entre o povo, preferencialmente no ambiente artesanal. Significa dizer de uma narrativa que transmite experiência, vida. A roupagem religiosa de Lescov também se fazem presentes claramente em suas narrativas.

Ele traz, também, muito fortemente arraigado em si o espírito da lenda. A sua reflexão sobre o justo é muito sedimentada em conceitos religiosos chegando até a distanciar-se de alguns dogmas. O mundo terreno e extraterreno é recorrente nas narrativas de Lescov bem como suas figuras representativas. Assim sendo, Lescov aborda o tema da criatura e se aproxima ainda mais do místico.



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