quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Animal que Logo Sou



DERRIDA, Jacques. O Animal que logo sou (a seguir). São Paulo: Editora da Unesp, 2002, 92 p.

Esta obra é uma tradução de L’Animal que donc Je suis (À Suivre), publicada em 1999 pela editora Galilée. É um texto de aula, uma conferência proferida por Jacques Derrida na França (Cerisy).

Nas primeiras palavras da conferência, Derrida evoca conferências passadas, faz agradecimentos e introduz a temática das palavras nuas. Com isso se refere ao tema da nudez buscando, desde o Livro do Gênesis, as mais acuradas acentuações sobre o tema. Além disso, o tema do tempo é recorrente e ele já o introduz dizendo que devo retomar um tempo, me perdoem, um instante mais antigo ainda, um tempo antes deste tempo.

Outros temas desenvolvidos na obra dizem respeito a nominação, à crueldade e também o dado da negação. O autor trata, então, do fim do homem, de sua passagem ao animal evocando a noção nietzscheana do homem como animal de promessas.

A partir da curiosa imagem do gato (que é uma gata) que o observa nu, a reflexão é desenvolvida sobre a natureza da nudez, suas origens e suas implicações nos seres humanos a partir do próprio animal. Não se trata, porém, de um animal-metáfora, mas de um animal real, um(a) gato(a) real. É sugerida, assim, a noção de animal-estar: o animal é contemplado por outro animal, mas à diferença do animal, o homem experimenta a vergonha da nudez. A conclusão pode ser a que se segue: o animal, portanto, não está nu porque ele é nu. Assim, a passagem da nudez para a vestimenta se configura como aspecto mediado pela técnica. O homem deixa de ser nu porque tem o sentido da nudez (pudor e vergonha).

Toca-se, portanto, os limites entre o animal e o ser humano. Algumas questões que aparecem ao logo da obra são as seguintes: a busca sobre o que, de fato, é constitutivo do próprio homem, que o define, que o conceitua? Quais os principais elementos que podem sugerir ao homem a sua pretensa dominação sobre o animal? Em última análise, a pergunta sobre o que significa ser humano está latente na reflexão.

A implicância do caráter de se poder responder é desenvolvida na obra. A dificuldade da resposta do animal que não se configura à compreensão como uma resposta objetiva. Ai é possível a noção de palavra como elemento norteador. Entra no jogo a questão da literalidade da palavra, do que se pode responder e dizer literalmente, o que está presente na letra.

Deste ponto em diante, no texto, passa a ser discutida temática do nome. A existência mortal é dada e indicada pelo próprio nome recebido. Exatamente porque o nome sobrevive ao nomeado. O nome indica, já, seu possível desaparecimento. O animal estava lá antes de ser nomeado pelo Ich (homem em hebraico), na narrativa de Gênesis 2. Disso decorre uma encruzilhada: o animal me interpela e me faz pensar a quem sigo ou por quem estou sendo seguido. Me remete a um escondimento. As implicações que advem destas constatações resultam na compreensão do mundo, das coisas, do viver, do falar e do morrer.

O animal é, portanto, um outro. Ele não detêm o poder da palavra. No entanto, ele se aproxima do humano e resiste aos conceitos que damos a ele. O título da obra parece sugerir esta ambiguidade fascinante: o animal que logo sou, que logo sigo, também. Quando Derrida recorre ao texto de Genesis 2 para ilustrar a problemática da nomeação, sugere o desnível que decorre daí. O descompasso na ordem natural das coisas: o homem chega depois e nomeia os que já estão lá.

Duas novas reflexões são introduzidas aqui: assujeitamento do animal em relação ao homem e tudo o que pode advir desta prática. Todo o desenvolvimento tecnológico, as pesquisas, os conhecimentos em zoologia e genética contribuíram fortemente (e por que não dizer inteiramente) para uma maior sujeição do animal ao homem. A industrialização, o adestramento, os clones e tudo o mais que, em genética, subjuga os animais é o elemento mais evidente da violência e da barbárie contra eles. Tudo isso, porém, em prol do bem-estar do homem.

Há, contudo, uma negação e um escondimento desta atuação violenta do homem na história. Derrida a compara aos piores genocídios. Por outro lado, ainda existem os que, de alguma forma, empenham esforços para lutar contra essa violência mesmo que de forma muito reduzida. A temática da compaixão e da piedade entre os viventes é indicada pelo autor como necessária e fundamental para conter o avanço desta barbárie. Uma definição aparece: os homens seriam em princípio esses viventes que se deram a palavra para falar de uma só voz do animal e para designar nele o único que teria ficado sem resposta, sem palavra para responder.

Nasce, então, um novo vocábulo para tratar ainda mais profundamente esta questão: animot. Significa, portanto, algo em torno do que o vivente tem em si e do rastro que deixa. Nem uma espécie, nem um gênero, nem um indivíduo, é uma irredutível multiplicidade vivente de mortais. E ele diz mais à frente: não há o animal no singular genérico, separado do homem por um só limite indivisível. Existem “viventes” cuja pluralidade não se deixa reunir em uma figura única da animalidade simplesmente oposta à humanidade.

Todo o bestiário derrideano é revisitado como indicativo de que cada vez mais sua autobiografia leva como marca este elemento. Parece ser exatamente pelo fato de que há uma impossibilidade de linguagem que ocorre a perda destes rastros, dos próprios rastros animais. Disto decorre que há uma perda, também, de sua autobiografia. Ficam, no entanto, as perguntas finais: o que significa dizer eu, que sou eu, quem sou eu? Outras questões podem ser colocadas: entre homem e animal, quem responde a quem? Estas e outras questões atravessam toda a obra do autor e se manifestam muito claramente na sua presente exposição.

Um comentário:

Mayra Lopes disse...

Adorei essa postagem...
Acho que ficaria legal pegar um grupo e depois desse texto assistir o curta: "Ilha das Flores".
Lá questiona o que forma o homem, o que definem o homem como homem: Seria um telencéfalo desenvolvido e um polegar opositor?
Ou seria a forma de tratá-lo. Mostra que alguns humanos são tratados em nossa sociedade piores que animais.
A nudez é sem dúvida mais um indicativo.