domingo, 2 de agosto de 2009

A Ponte


Eu tenho uma égua. É uma égua branca, muito limpa e muito clara. Muito alta e muito bela. Essa égua se chama Palavra. Era uma manhã de fevereiro. Chuva fina que doía os ossos de tão fria. A todo momento chovia. Chovia várias vezes. Arriei a égua, coloquei sobre ela coisas que eu levaria. A Palavra já sabia muitas coisas sobre mim. Pensei em colocar sobre ela algumas preocupações que eu guardar, há muito tempo, dentro de um bornal.

Aproximei-me do curral puxando a Palavra pelas rédeas. A chuva tocava meu chapéu e descia mansamente sobre as pontas das minhas orelhas. Escorria pela barba e penetrava atrevidamente pela gola da minha capa. Minhas botas afundavam na lama, atrás de mim vinha a Palavra. Peguei um laço que estava enrolado no batente da porteira. Dentro do quarto de ferramentas, retirei da caixa velha minha espingarda polida. Ajeitei tudo no arreio, montei e parti.

A chuva parou um pouco. Eu já ia longe. Atrás de mim a fazenda, muitas coisas deixei para trás. Eu dependia da Palavra para o caminho e para o futuro. Não sabia ir sem ela aonde quer que fosse. A Palavra sempre era serena, às vezes arredia. Nem sempre me fora dócil. Às vezes fugia de mim. Dependendo do humor a Palavra mudava o trote, se tornava grosseira como naquele momento. Havia mudado a marcha, suas orelhas se voltavam para frente. Daquele jeito que acontece com os cavalos (nesse caso era uma égua!) quando estão atentos a algum evento estranho. Lá embaixo, na curva da estrada barrenta, havia uma ponte. O aguaceiro das chuvas dos últimos dias fez aumentar a correnteza do rio. Ia descendo, dando cambalhotas na água suja, um grande tronco de árvore. Aquele vulto estranho, no sem sol da manhã, assustara a Palavra. Ela estacou. Aticei com as rédeas e instei a Palavra a continuar o percurso. Imaginei que, se estava ainda tão distante da ponte e já se encontrava assustada, quanto mais quando mais perto dela chegasse no momento de atravessá-la.

Continua ...


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