terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Ponte - Parte II


Leia a 1a Parte aqui!

A Palavra escorregou aqui e ali mas me mantive firme no seu dorso. Tinha medo de que entre um susto e outro a Palavra me jogasse ao chão como era comum quando subia em suas costas alguém que não a conhecia. Mesmo sendo um cavaleiro experiente como eu há que se estar atento quando sua montaria é a Palavra. A Palavra me conduz à ponte, diante dela paramos, eu e a Palavra. Não há como dar volta com a Palavra, seria alongar demais o percurso, numa palavra. Eu e ela paramos, então. Quem olhasse de longe veria um vulto de quatro patas com uma capa e um chapéu. Ambos contemplávamos a ponte. Atravessá-la era um desafio. A água agitava suas escoras de madeira. As tábuas tremulavam, diante do agito das águas. Um silêncio havia em volta, cortado apenas pelos respiros da Palavra e pelo farfalhar das águas insistentes. A Palavra receia, quando não recua. Eu a animei e começamos a travessia.

No princípio era a Palavra que tremia, no meio era eu. Ao olhar para baixo via, para além da Palavra, as águas revoltas por entre as tábuas soltas. Em um e outro passo a Palavra corria o risco de enfiar as patas pelo buraco das tábuas. Pensei em voltar, mas voltar e seguir, sobre a Palavra, era absolutamente a mesma coisa. O perigo estava abixo de nós. A Palavra na corda bamba ou na ponte bamba. Num momento de agitação das águas acontece o esperado e temido: a Palavra refugou de repente, fui lançado sobre ela com as mãos ainda presas às rédeas. Fui me chocar contra uma tábua da beira da ponte. O chapéu voou para as costas e só não foi par ao rio por causa daquela cordinha que o prende ao pescoço. As rédeas da Palavra sumiram de minhas mãos ae ainda não sei se foi eu que as soltei ou elas a mim. Na ponte perdi a Palavra, ela se afastara de mim. Atravessara sozinha, agora era mesmo no dorso da ponte. Eu ali, sem a Palavra, fiquei entre dores apalpando a perna que sangrava. Eu sem a Palavra não conseguia caminhar. A Palavra continua sem mim e está do outro lado da ponte. Ela agora me espera.

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