quinta-feira, 9 de julho de 2009

Aceno



Naquele dia frio de fins de maio, tomei o café, coloquei o paletó e me despedi. Não me despedi de nenhum mortal pois estava sozinho! Na estante, ao fundo da sala carpetada, peguei a velha carteira de couro e a enfiei no bolso do paletó. Não chorei porque não havia lágrimas em meus mornos olhos de fins de maio. Olhei detidamente para a poltrona onde costumava ler um livro acompanhado por uma silenciosa e quente xícara de café. Meus movimentos eram lentos e medidos. Talvez para não sentir mais frio que o habitual ou para não me distrair na observação da velha e surrada moradia.

Vi, em um canto da sala, meio empoeirado e desbotado, um porta-retratos sem graça. Ostentava uma velha foto minha que parecia sorrir ao mundo. Um contraste! Naquele instante nem a mim mesmo eu sorria! Outro contraste: os cabelos negros de outrora pareciam desdenhar os brancos de agora! As paredes de um amarelo fosco da sala traziam a marca do tempo. Um tempo de alegria que eu nem mesmo conseguia lembrar. Dentro da lareira, pedaços de envelopes cujas beiradinhas verde-amarelas não haviam sido queimadas. Junto à cinza daquelas cartas, um coração. Flutuando com a fumaça que subiu, um amor que se apagou.

É por isso que aquela casa não tinha mais sentido. Arrumei meus óculos pálidos frente aos olhos tão já sem brilho. Endireitei a gola da camisa e me preparei para sair. Nada deixava atrás, mas saía de mãos vazias. No vazio do mundo, fora, o meu coração bem cheio. Mais um que se junta à multidão. Ao girar a chave senti, no barulho seco que soou, as portas da escravidão se abrindo. Os gritos afogados dos cavaleiros, a destruição dos carros e cavalos do faraó e a imensidão do deserto à minha frente. Triste engano! Esses gritos eram muito fracos. Esqueci-me de que em qualquer lugar onde esteja um homem ou uma mulher, um ou outro carregará a sua dor. Rirá de seus infortúnios e cantará suas ilusões. Não há mais Egito e nem terra prometida - pelo menos enquanto lugares definidos -, porque cada um os carrega dentro de si! Seja sozinho no aconchego de um quarto ou no meio de uma multidão sem rosto.

E, comigo, ia pensando:

“Um olhar de alguém que se vai
a saudade de alguém que já foi embora
o aceno de mão distante
dói no peito um coração que chora

o amarelo do sol no crepúsculo
a despedida da lua na aurora
a mudança dos anos na vida
a lembrança dos anos de outrora

despedir é perder um pedaço
numa dor que nos corta na hora
a ausência me lembra de graça
a presença que quero agora.”

Fechei a porta atrás de mim e saí. Desci a rua lentamente para ganhar, em poucos passos, um mundo cheio de nada...

Um comentário:

Bala Salgada disse...

Adorei!

Comecei a sentir como deve ser essa dor, de caminhar para o nada, deixar as coisas para trás.

Os tempos mudaram.

Os problemas humanos...não.

Obrigada, eu adorei a foto. Ri muito, que belo trabalho.

Beijão!