domingo, 17 de julho de 2011

A palavra escrita e os livros na literatura profética



Alguns dos profetas empregaram a escrita. É possível que alguns outros profetas tenham redigido sua mensagem desde o início por escrito.

As razões para isso podem ser diversas. Gunneweg pensa que a vinculação de um profeta a um santuário faz com que ele tenha o interesse em conservar por escrito obras importantes. Millard afirma que a profecia sendo mensagem para o futuro só poderia ser verificada se fosse guardada por escrito. Hardmeier explica que a mensagem profética, quando rejeitada, gerava uma literatura de oposição, que servia de reflexão.

Zimmerli, o mais convincente, aponta vários motivos para a literatura profética: para que os ouvintes também possam ver e ler; para servir de testemunho e acusação, quando a desgraça acontecer; para sacudir o povo, como ataque ao presente.

1. Os livros proféticos

A Bíblia hebraica reúne três grandes profetas (Isaías, Jeremias e Ezequiel) e os Doze menores. A tradução dos Setenta altera a ordem dos Doze e os coloca antes de Isaías. Também introduz após Jeremias os livros de Baruc, Lamentações e a Carta de Jeremias (capítulo 6 de Baruc, em muitas edições atuais).

Daniel é considerado por algumas edições como profeta, enquanto que para os judeus ele está entre os “outros escritos” (Ketubîm). Na verdade, ele representa a literatura apocalíptica, filha da profecia.

2. A formação dos livros

No caso dos profetas, não é certo que um livro inteiro pertença a uma mesma pessoa. Mesmo Abdias, o menor escrito da Bíblia, apresenta acréscimos posteriores.

2.1. A palavra original do profeta

Pode ocorrer que entre a proclamação da mensagem e a sua redação transcorram vários anos. Por exemplo, em Jeremias capítulo 36, o profeta recebe a ordem de escrever tudo o que ouviu desde a vinte e dois anos antes. E no versículo 32 se lê que, num segundo rolo, se acrescentaram muitas palavras àquelas escritas no primeiro rolo, queimado por Joaquim.

É provável que, com a maioria dos profetas, a fala desse lugar a folhas soltas, posteriormente formando pequenas coleções. Também pode ter ocorrido um processo inverso: primeiro a escrita, depois a pregação.

2.2. A obra dos discípulos e seguidores

Pessoas com relação direta com o profeta ou mesmo bem distantes temporalmente atuaram redigindo textos biográficos, reelaborando ou criando novos oráculos. Temos como exemplo muitos relatos sobre o profeta em terceira pessoa, relatos anacrônicos, mudança de sentido no final do texto e acréscimo de palavras como simples esclarecimentos que orientam o leitor.

2.3. O agrupamento de coleções

Ocorre que nem sempre o critério para o agrupamento das coleções de oráculos foi o cronológico. Os redatores parecem ter preferido o agrupamento por temas e de acordo com os ouvintes e destinatários. Aparece assim o seguinte esquema, que não é absoluto:

- oráculos de condenação contra o próprio povo;

- oráculos de condenação contra países estrangeiros;

- oráculos de salvação para o próprio povo;

- parte narrativa.

2.4. Os acréscimos posteriores

Os livros proféticos, ainda assim, estavam sujeitos a acréscimos, geralmente de blocos inteiros. Pode-se garantir, entretanto, que pelo ano 200a.C. os livros proféticos já estavam em sua forma atual, de acordo com a citação do Eclesiástico e de cópias encontradas em Qumrã.

Resumo de: SICRE DIAZ, José Luiz. Profetismo em Israel. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 173-181.

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