sábado, 7 de junho de 2014

Uma palavra sobre A Palavra


E a Palavra logo se fez: uma reflexão


Se eu digo: a palavra “palavra” é um dos grandes verbetes do dicionário convido você a reparar no curioso desta frase. Palavra é usada para descrever a própria palavra. Além disso, usei o termo “verbete”. Um derivativo de verbum, palavra. A primeira linha desse verbete, no dicionário Houaiss, diz de algo que raramente paramos para pensar na definição de palavra: “unidade da língua escrita, situada entre dois espaços em branco, ou entre espaço em branco e sinal de pontuação”. À nossa mente vem depressa uma folha de papel impressa.

Muita coisa precisa ser resolvida aí: unidade de língua escrita, espaço em branco, sinal de pontuação. Isso quase pressupõe uma materialidade. Nossos olhos se detem nas palavras quando as lemos, raramente observamos os espaços em branco. É por isso que desperdiçamos papel e gastamos tinta além da conta. A palavra não preenche um espaço branco, ela convive com os espaços brancos. Se notarmos bem, é a partir do século VIII da nossa era que o texto escrito ganha a estética de palavras separadas. Até então as palavras eram unidas, sem espaço, uma scriptio continua. Curiosamente, sobre isso, Aristóteles observava que o final da frase deveria ser intuído com base na estrutura rítmica. Isso implicará, mais tarde, na grande dificuldade de se traduzir, de se entender o sentido de um texto, de se separar uma idéia da outra. Acarretará erros quando se faz o mapeamento de um texto. Uma palavrinha no texto da frente pode estar fora de contexto porque originalmente estaria presa ao texto de trás.

A palavra pode ganhar corpo, ela se encarna no nosso dia a dia. É por isso que falamos: pode ser uma palavra cheia (de sentido), mas pode ser uma palavra vazia. Pode ser uma palavra longa ou curta. Poderá ser uma palavra pesada (de opressão) ou pesada (de medida). Ele mediu as palavras. Pode ser uma palavra leve. Doce ou amarga. Pode ser uma palavra dura. Pode ser alegre, pode ser triste. A literatura brinca com a palavra quando usa expressões como essas: ela morre nos lábios, ou na garganta. Pode ser mastigada, entrecortada. A palavra pode ser perdida e na hora em que mais precisamos dela podemos não encontrá-la. Além de tudo isso, ainda se pode colocar a palavra na boca de outra pessoa ou tirá-la de lá. A palavra pode ser a última, mas pode também ser a primeira. A palavra pode ser boa, a palavra pode ser má. Pode ser refinada como ouro ou bruta como a pedra que não foi polida. Ela pode ser semeada e pode, também, ser colhida. A palavra ainda tem característica imitativa e de onomatopéia: atchim, tiquetaque, chuá-chuá, zumzum.

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