quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Estive lendo São Marcos e descobri...

Quais os discípulos destacados?

A lista dos doze é apresentada por Marcos em 3,16-19 da seguinte forma:

"Eis os doze que designou: Simão, a quem acrescentou o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer: filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes, que foi quem o traiu." (Tradução de João Ferreira de Almeida)

Os três primeiros são mencionados juntos e têm em comum a mudança de nome. Os cinco seguintes não trazem particularidades. Já os quatro últimos tem destaques para três em particular: filho de Alfeu, zelota e traidor. Assim:
Simão Pedro
Tiago (Zebedeu)
João (Zebedeu) André

Filipe
Bartolomeu
Mateus
Tomé

Tiago (Alfeu)
Tadeu
Simão (zelota)
Judas

É fora de dúvida que o discípulo mais destacado é Pedro, com pelo menos 19 ocorrências do seu nome no evangelho. É citado em algumas relevantes passagens seguido dos dois irmãos Tiago e João (note que é como aparece na lista): 5,37; 9,2; 13,3 (mais André); 14,33. Se passarmos em revista as ocorrências, veremos que são muito interessantes: o episódio da filha de Jairo; a transfiguração; o anúncio escatológico e o Getsêmani. Essas ocorrências se situam a partir da lista dos doze. Antes dela, encontramos, no c. 1, o chamado dos 4 primeiros onde Pedro ainda é conhecido por Simão. Disso posso concluir que, dos doze, não mais que cinco (menos de 50% deles) são destacados pelo evangelista e aparecem mais de uma vez: Pedro, Tiago e João, André, Judas Iscariotes, que no contexto da paixão, sempre é denominado com a expressão “um dos doze” (imitado somente por Mateus e uma única vez [26,47]).

Quais são mencionados uma única vez?

Tomé aparece somente na lista (veja-se Mt e Lc. Somente Jo dá maior destaque a este discípulo). O mesmo ocorre com o discípulo Mateus. É interessante, também, que Marcos dedique toda uma perícope para dizer do chamado de Levi, no entanto, não fica claro que seja Mateus se se lê somente sua narrativa (2,13-17). Mais curioso ainda, é o fato de que ele diz que Levi é o de Alfeu e, na lista, esta designação é feita a Tiago (3,18). O Tiago de Alfeu parece ser, também, mencionado uma única vez e só na lista. As ocorrências mais difíceis sobre ele carecem de olhar mais atento (15,40 e 16,1). A meu ver, a nota da Bíblia de Jerusalém sobre Mc 15,40 precisa ser corrigida. Simão, o zelota está na mesma situação. Não me parece que o mencionado em 6,3 seja o mesmo. Isso se aplica ao de nome Tadeu.

Outras coisas

Brow afirma que “o autor de Marcos descreve os membros dos doze, e especificamente Pedro, como não entendendo Jesus nem a necessidade de ele sofrer (8,17-21.27-33; 9,6.32; 14,37).” Ele argumenta que é possível ver na narrativa do evangelista uma preocupação com o pensamento de sua própria comunidade que não consegue vislumbrar a cruz como elemento integrante do ministério de Jesus. Disto decorre, ainda segundo Brow, que a própria compreensão dos discípulos poderia apontar para um cristianismo estranho pregado após a ressurreição: “os doze que afirmavam terem sido testemunhas dos milagres e de Jesus Ressuscitado, pregaram uma cristologia que se baseava no miraculoso e negligenciava a cruz?” Isso faz pensar muito, uma vez que, aceitando a possibilidade de Marcos 16,9ss ser acréscimo tardio, Marcos não narra aparição aos onze.

Noto que seria bom observar alguns pontos teológicos à luz desta tese: no que se refere à fé, em Marcos, ela não aparece como ponto muito positivo com relação aos discípulos. Em 4,40 o tom é ameaçador e indica a falta da mesma. Já em 11,22 tem caráter exortativo convidando a se ter fé. As outras aparições do termo (pistin) não se refere aos discípulos.

Outras coisas mais

Imagino que as questões que, eventualmente, possam ser levantadas por estes dois pontos possam ter relevância para uma teologia da missão e do discipulado em Marcos. Embora eu verifique que Marcos não apresente Jesus falando especificamente aos doze, mas “aos discípulos” pode-se entender que eles, pelo menos, estariam como ouvintes junto a este grupo maior (veja a meu favor, 4,10). Mesmo assim, preciso considerar 3,14 como programa que se estende ao evangelho inteiro (por ex. 6,7).

BROWN. Raymond. A Comunidade do Discípulo Amado. São Paulo, 1984, p.16.

O mesmo autor cita, ainda, um estudo interessante: E. BEST. “The Role of the Disciples in Mark”. NTS 23 (1967-77), 377-401.

Por ora é isso! Tem muito mais coisas, mas o tempo é curto!

Abraços a todos e todas!

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