segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O tempo se aproxima


No décimo dia do nono mês, entre o crepúsculo e a aurora, eu me encontrava nos jardins de Academo. De lá, fui suspenso no ar e me vi muito acima do mar entre Atenas e Siracusa. Olhei para baixo e quase perdi as forças. Estava muito alto sem que ninguém me segurasse. Alguém tocou meu braço, porém, e me disse: “fique atento! Verás muitas coisas num breve espaço de tempo”.

Virei-me para ver quem me falava e meus olhos não puderam contemplar sua figura, tamanho era seu brilho. Fiquei como que cego por um momento e a voz repetiu: “olhe para o sul e observe”.

Olhei, então, e vi um enorme redemoinho que vinha do fundo do mar. Um redemoinho de fogo que subia sobre as águas. No seu centro parecia girar umas fagulhas muito brancas. Ao redor dele vi inúmeras pessoas maltrapilhas e sujas. Elas tinham um aspecto de extrema miséria e não olhavam para aquele círculo de fogo cintilante. Na mão de cada uma havia um cálice de ouro, muito belo e limpo.

Olhei de novo e vi chegarem, do norte e do sul, do poente e do nascente, uma enorme quantidade de pássaros branquíssimos. Estes, com seus bicos, tomavam os cálices que aquelas figuras humanas lhes ofereciam e, com eles, retiravam um pouco do fogo e bebiam dele no cálice.
Alguns pássaros se tornavam ainda mais brancos após beberem do fogo que estava no cálice. Outros se tornavam cinzentos e suas penas pareciam muito sujas. Outros ainda se transformavam em terríveis abutres e dilaceravam aqueles que haviam lhes dado o cálice.

Quando vi este último e horrível espetáculo, escutei um enorme estrondo. De um lado a outro no céu soou algo como que um forte lamento. Fiquei estarrecido e outra vez senti que minhas forças me abandonavam. O ser luminoso tocou-me de novo o braço e disse-me: “você não foi capaz de decifrar a visão mas vou revelar o seu segredo!”

“O fogo é o poder a que os homens aspiram. Suas fagulhas brancas indicam que ele não é totalmente mau, pois sua brancura se assemelha ao aspecto divino. No entanto, os pássaros são homens que aspiram este poder. Os que dele usam com retidão e justiça tornam-se mais brancos. Os que usam dele com segundas e más intenções sujam-se profundamente. Os que dele se apropriam para benefício próprio transformam-se em abutres famintos que dilaceram os que foram o próprio canal de seu poder. Os homens sujos e maltrapilhos são os pobres e humilhados. Eles têm algo valioso em suas mãos: a capacidade de fazer outros chegarem ao poder para agirem com justiça em sua defesa. Ouve e presta atenção ao que vou te dizer, porque direi uma única vez: o que vistes está próximo de acontecer. Será no terceiro dia do décimo mês. Se tens capacidade para entender, entenda!”

Publicado no Jornal
Tribuna de Minas de 24/09/2004
Juiz de Fora

2 comentários:

Alexsander Lopes Leocádio disse...

Para quem sabe ler: "um pingo é letra" - como dizia a mamãe!
Sinto que desconhecemos o "poder do serviço" e que agora só vejamos o "poder do egoísmo".
Bela reflexão!

A. ANDRADE disse...

Saudações Alexsander. Quanto tempo? Abços