sábado, 26 de julho de 2008

Sobre hermenêutica




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L. ALONSO SCHÖKEL. Hermeneutica de la Palabra: hermeneutica biblica. Vol I.
Madrid: Cristianidad, 1986, 203-215.


A modo de resumo


O autor propõe a pergunta: é difícil ler a Bíblia? Tempos atrás isso era constatado porque não haviam edições disponíveis e poucos eram os que liam. Um grupo seleto. Mesmo a tradução do s. XVI era proibida por ser protestante. Alguns conheciam retalhos (breviários), outros conheciam a Bíblia, embora não a liam. Alguns caminhos, no entanto, foram facilitando a leitura.
Outra pergunta: por que não escutá-la? Talvez seja mais fácil. A liturgia optou pela forma oral: um lê, a comunidade escuta. E se imaginarmos outros canais da realidade? A dificuldade mais radical consiste em aceitar a Bíblia como fato natural: válido para crentes e não crentes. O sentido religioso é pressuposto como confessional e/ou piedoso. Concepção pouco encarnacionista, estreitamente sacral. Tende a fazer a Bíblia inacessível. Se fosse aceita como outro livro da cultura não seria tão difícil escutá-la. E a maioria dos textos bíblicos que foram compostos para a recitação oral? Será mais fácil escutar a Bíblia se se conta com boas traduções e bons leitores.
É fácil escutar a Bíblia? Atualmente, não! Então volta-se à primeira pergunta: é difícil ler a Bíblia?
Não é difícil ler, difícil é saber ler! Deixar de ser analfabeto não é saber ler. O autor propõe que se poderia medir a capacidade de ler pela capacidade de lentidão na leitura, de repetição, de ficar a sós com o texto e consigo mesmo. É maneira diferente de ler: não por distração, por curiosidade e informação, por utilidade. O leitor que pratica a arte de ler desfruta sem evadir-se, se enriquece espiritualmente, compreende realidades valiosas sem desdenhar a informação[1]. Neste sentido, ler assim é muito mais útil e distraído que a leitura utilitária.
Um slogan se repete: “a Bíblia pertence a outra cultura”. Às vezes até apelidada de “primitiva”. Até mesmo exegetas corroboram estas afirmações. Qualquer obra importante requer tempo e esforço para abrir-se ao leitor, sob pena de cair só na pele da narrativa. A Bíblia está escrita à imagem e semelhança do homem: amassada com o barro da experiência humana; com o espírito da vida insuflado nela! Encerra e guarda um paraíso onde Deus passeia. Exilada, sofre a condenação à morte injusta. Quando pronuncia sua última palavra, “entrega seu espírito”. Não é difícil ler, difícil é saber ler. É preciso se re-educar na arte de ler.
Um dos obstáculos nesta arte é a pressa. Ela impede o ritmo justo, impede de re-ler. Na música isso é claro: não se toca rapidamente um canção que é lenta só para acabar [mais] rápido. Um exemplo: Is 60,1-9.
É preciso re-ler os versos, repeti-los. Que a palavra bíblica seja para nós como um sonho: nos fecha os olhos e nos abre a fantasia. Como a partida de futebol narrada no rádio. Como a criança que pinta por sua conta um quadro que apenas lê no livro.




GABEL, J.B. - WHEELER, C.B. A Bíblia como Literatura. São Paulo: Loyola, 1993.
SIMIAN-YOFRE, H. (Org.). Metodologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2000.
VV. AA. Hermenêutica e Exegese a Propósito da Carta a Filêmon. RIBLA no 28. Petrópolis: Vozes, 1998.
TOSAUS ABADÍA, J. P. A Bíblia Como Literatura. Petrópolis: Vozes, 2000.




[1] Um bom artigo nesta direção é, AZEVEDO, Walmor O. “O que é ler?” ESTUDOS BÍBLICOS 32. (1991), 46-57.

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