domingo, 16 de abril de 2017

A descida do Senhor à mansão dos mortos

[De antiga homilia no grande Sábado Santo, PG 43, 439.451.462-463.] 

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. 

Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. 

E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’ Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. 

Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa. Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti. 

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus. Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quem matou Jesus?


Considerando a cronologia do Evangelho de Mateus – e não quero me alongar nisso – Herodes, O Grande, reinou na Palestina de 37 a 4 a.C. Foi o responsável pela ampliação do Templo que veio a ser chamado de Templo de Herodes. Sendo assim, Jesus teria nascido no ano 6 a.C. e é bom lembrar que Herodes manda matar as crianças de dois anos para baixo pois não estava certo da data sobre Jesus.

Jesus teria vivido sua infância, adolescência e juventude em Nazaré ou arredores, talvez Cafarnaum decidindo-se por sua chamada “vida pública” ao redor dos seus trinta anos como nos avisa Lucas (3,23). Ora, são muitas as indagações sobre o que ele teria feito neste período anterior. Para falar sobre ele é preciso chamar a atenção para algumas preocupações sobre Jesus na atualidade. Eu diria que temos, pelo menos, três jesuses e um quarto não está descartado.

O primeiro deles (sem querer hierarquizar) é o Jesus histórico. Aquele que nasceu e viveu na Palestina do primeiro século, filho de José e Maria. Trabalhador, talvez iletrado, camponês. Os estudos sobre este Jesus estão avançados e se multiplicam e cito alguns nomes importantes: Paul Méier, Dominic Crossan, Gerd Theissen e Geza Vermes. O segundo é o Jesus dos Evangelhos (repare que uso em maiúscula) também identificado com o Cristo da Fé (não se dissociam como querem alguns). Senhor dos Senhores, o Ressuscitado e fundador do Cristianismo. O terceiro é o Jesus de Hollywood. Aquele que estampa capas de revistas, que fugiu com Maria Madalena e que dá ibope vendendo milhões de livros e películas. Este é bem ao contrário daquele do Evangelho que pedia discrição aos curados e curadas, perdoados e perdoadas e que até os apartava do meio da multidão para melhor conhecer seus problemas.

Outro dia estava diante da TV e vi um pastor evangélico pregando (uso em minúscula e não tenho nada contra os evangélicos até porque tento ser um, etimologicamente falando). Ele dizia que o Jesus no qual ele acreditava era o da prosperidade, aquele que quer que a gente ande de carro, que tenhamos dinheiro (e insistiu muito nessa palavrinha mágica). Aquele Jesus que quer te ver (leitor e leitora) com uma gorda conta bancária. Nada mal. Acho até que Jesus nos quereria bem assim! Só que fiquei pensando que estou lendo um outro evangelho (em minúscula). Leio o (E)vangelho do não ter lugar para reclinar a cabeça; o Evangelho do vender tudo e dar aos pobres; o Evangelho das prostitutas e pecadores; o Evangelho do dar a César o que é de César e do não servir a dois senhores.

Creio que Este seja o Evangelho mais original diante de tantos “piratas” que apareceram e aparecem por aí. O leitor e a leitora devem estar se perguntando quando vou falar do título desta postagem. Pois sim, no fim da vida de Jesus (aquele dos Evangelhos e não o de Hollywood ou o do pastor da TV) a gente nota um contínuo afastar-se das questões do templo (e não Foi o único, vide os monges de Qunran). Parece que, aos poucos, vai se distanciando e se desiludindo com a forma como a religião está sendo tratada pelos seus contemporâneos (vide Marcos 13 e João 2). Sendo assim, o Sanedrin ou Sinédrio (sacerdotes, anciãos e escribas em número de 71) o condenam e o poderio romano o assassina. A história não é tão simples assim, é mais complexa, mais dolorosa. Além disso, nós (hoje) continuamos a apresentar um Jesus que não co-incide com aquele do Evangelho. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!


quinta-feira, 30 de março de 2017

5o Domingo da Quaresma

Ez 37,12-14; S 129; Rm 8,8-11; Jo 11,1-45

As portas se abrem! O Senhor nos chama! É preciso levantar! Neste último domingo da quaresma recebemos um convite sincero para que nossas atitudes espelhem a Páscoa do Senhor. Assim como seu túmulo não o reteve, também nós não poderemos deixar que os túmulos da vida nos segurem. O profeta Ezequiel dá uma notícia alegre ao povo escravo no Exílio: suas sepulturas serão abertas e serão reconduzidos. De outra forma - mas na mesma direção - cantava o salmista: “Quando o Senhor reconduziu nossos cativos parecíamos sonhar!” (Sl 126) Que canção mais alegre! Parece um sonho, quando o Senhor nos liberta! Nascemos de novo para a vida! É isso que o profeta anuncia: a libertação do povo é sua Ressurreição. Esta leitura nos aponta para a Páscoa e nos faz mais firmes em nossas decisões, propostas e esperanças. No Espírito do Senhor revivemos, renascemos e nos tornamos novas pessoas. As portas da morte não nos detêm porque o Senhor desata nossas mãos cansadas e pesadas pela escravidão e nos deixa ir.


Esse é o quadro desenhado por São João no Evangelho: a Ressurreição de Lázaro. Está claro que só podemos ler este texto à luz da Ressurreição de Jesus. Em Lázaro a tristeza converte-se em alegria, o pranto em sorrisos, o limitado em eterno, a agonia em festa e o mau cheiro em perfume. No mau cheiro de Lázaro residem as desesperanças dos discípulos, das irmãs dele (Marta e Maria) e dos judeus. Mas para Jesus, ele dorme e será acordado! Não vamos nos ater ao choro de Maria e nem ao desconcerto de Marta. No mau cheiro de Lázaro residem nossas enfermidades, nossas angústias e nossas pedras; mas na Palavra do Senhor estão nossas curas, nossas canções e nossas flores; o perfume e a esperança. Lázaro fica quatro dias no seio da terra e Jesus passará três dias no seio da mesma. No entanto, o Pai sempre O ouve e, com Jesus, devolve a vida a Lázaro. Assim também O ressuscitará dentre os mortos. Essa é a nossa fé! Fé que não nos deixa esmorecer e revigora o que temos de melhor: a presença do Senhor ressuscitado que caminha em nosso meio. A liturgia de hoje é uma liturgia pascal, liturgia de vida. São João carrega o pincel nos contrastes, como acima mencionamos, mas conclui com a leveza e o mistério que é típico de sua pena: “Desatai-o e deixai-o ir!” Reflitamos, às portas da Santa Semana, o que isso significa: “Desatai-o e deixai-o ir!”  

quarta-feira, 22 de março de 2017

4o Domingo da Quaresma

1Sm 16,1b.6-7.10-13a; Sl 22; Ef 5,8-14; Jo 9,1-41


Assim como os passos de Israel trilham caminhos novos, também nós trilhamos um caminho rumo à Páscoa. O Quarto Domingo tem convites bonitos que falam ao coração e reflexões profundas para @ peregrin@ quaresmal. Para apascentar o seu povo, escolhe o Senhor a Davi. Aquele que será o novo Rei, o novo pastor. O que deixa um rebanho de ovelhas para apascentar um rebanho de gentes. A figura de Davi no panorama do Antigo Testamento tem uma envergadura considerável. O Espírito do Senhor repousa sobre ele e o faz condutor do povo de Deus. A relação deste texto com o tempo quaresmal repousa na saga de Jesus que é o novo e Bom Pastor. Aquele que por seu sangue e corpo conduzirá um novo povo à libertação em sua Páscoa, que é nossa! Reconhecendo-o como filho de Davi, o Novo Testamento aponta para Jesus como aquele que trará a salvação por tanto tempo esperada. O Senhor não julga segundo as aparências, mas olha o coração. A escolha de Davi na teologia bíblica indica, mais uma vez, a força e a liberdade de Deus que cuida de seu povo e lhe envia pastores. Assim como Moisés em tempos de outrora, Davi é responsável pela condução do povo na justiça e na paz, para a vida e para a liberdade.

Nossos ouvidos escutam, neste quarto domingo, um dos relatos mais emblemáticos do quarto Evangelho: o homem cego de nascença. No capítulo anterior, Jesus afirma ser Ele a luz do mundo (8,12) e agora isso é mostrado com toda a poesia e beleza de João: um homem que dá testemunho de Jesus sem O conhecer! Ele recebe de Jesus a cura, mas não sabe quem é Jesus. Interessante que em quase todo o capítulo Jesus está fora de cena: aparece no começo e no fim. O meio é a intensa profissão de fé “daquele que fora cego”. O texto é uma grande e maravilhosa metáfora sobre os que se dizem de olhos abertos, mas que não se atentam para o que Deus realiza em seu meio. Não raro somos assim: procuramos sinais maravilhosos sem nos recordarmos que o Senhor age no silêncio e até quando “não sabemos” que ele está perto: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”(9,36). A sutileza e leveza da cura, a beleza e certeza da profissão de fé do homem, a discreta relação de Jesus com o que fora cego e a abertura inicial dos olhos aos discípulos (9,3) são elementos ricos e profundos para a meditação quaresmal. Este é o tempo da sutileza, da leveza e da escuta mais atenta ao que o Senhor nos diz. Façamos do tempo quaresmal um sinal para nossas vidas e para a vida de todos. Que nossos olhos estejam abertos quando na Páscoa do Senhor formos testemunhar a sua defesa da vida e do ser humano. Que nossos olhos estejam abertos para que, na Páscoa do Senhor, sejamos capazes de conduzir a muitos que estão presos pelas correntes da indiferença, do descaso e da dor.


quarta-feira, 15 de março de 2017

3o Domingo da Quaresma

Ex 17,3-7; Sl 94; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42

Dá-nos de beber! Estamos, mesmo, a meio caminho do deserto. Neste terceiro domingo da Quaresma adentramos um pouco mais. É bom que paremos um instante para escutar um refrão neste domingo: Estamos com sede (1ao leitura), dá-nos de beber (Evangelho). Junto ao povo de Israel, a impaciência e a revolta contra Moisés (e contra o Senhor). A água do deserto é uma água de discórdia, de revolta e de amargura. Natural, até, porém desconfiado está o povo da presença do Senhor! É interessante que o texto traz uma lembrança ao leitor e à leitora: a vara é aquela que feriu o Nilo (Ex 7,17). Lá atrás, a presença do Senhor, mostrando as maravilhas da libertação; agora, a sua presença junto à necessidade de seu povo. O convite do Senhor é para que o povo se recorde. É bom lembrar que o mesmo cajado dividiu o mar em dois para que o povo fosse, de fato, libertado das garras da escravidão (Ex 14,16). No deserto que estamos fazendo, neste tempo, o convite é o mesmo: a recordação dos feitos do Senhor. É importante lembrar, também, tudo o que Ele fez e tem feito por nós para não cairmos na escravidão da dúvida: Ele está no meio de nós ou não?! O caminho quaresmal deve ser um exercício do coração. O coração, para o povo hebreu, era a sede do conhecimento, da intelectualidade. Dessa forma, exercitar o coração é exercitar a memória para que os passos tenham sentido. Sendo assim, a esmola, a oração e o jejum deixarão de ser meros sinais exteriores e se tornarão marcas pascais de libertação.

Estamos, mesmo, no caminho do deserto. Agora sentamos, ao meio dia, com Jesus à beira do poço de Jacó. E quem é esta que chega com uma vasilha para tirar água? Ela vem da Samaria, vem da África, vem da América, vem da favela e vem do campo. Ela não sabe, mas vai se encontrar, agora, com Aquele que é a água viva. O diálogo é um dos mais belos fragmentos do Evangelho joanino (e do Novo Testamento). Um quadro pintado pelo evangelista. Repare, caro leitor, cara leitora, que por três vezes a mulher se dirige a Jesus como Senhor (vv.11.15.19). As duas primeiras depois de uma fala de Jesus (isto é reconhecimento!). A última vez precede um discurso de revelação que Jesus lhe apresenta. Vamos escutar o diálogo: Jesus fala do dom de Deus e da água viva, ao que ela responde: “Senhor, nem tens vasilha...” Depois Jesus fala de uma água que Ele dá e que é fonte eterna, ao que ela responde: “Senhor, dá-me dessa água... para que eu não precise voltar aqui!” Há um descompasso que nós leitores percebemos: Jesus está muito à frente dela, mas o olhar dela é curto. E nós? Como estamos diante da Palavra do Senhor? O nosso olhar também é curto? Mas ela o reconhece como profeta (terceira vez que aparece Senhor) e Jesus lhe diz da verdadeira adoração. Ao contrário da 1a leitura, este texto é calmaria, sem murmurações e sem revolta. Some o calor do dia, fica somente a leveza das palavras de Jesus e a atenção daquela que vem, da África, da Favela, da Samaria... Uma catequese maravilhosa em defesa da vida (Campanha da Fraternidade) das pessoas e do mundo. A mulher vê, então, os tempos messiânicos (v.25); tempos tão bons que não é mais necessária a vasilha para tirar água (v.28), porque a água da vida nasce da Palavra do Senhor e jorra na fonte do coração.