quarta-feira, 22 de março de 2017

4o Domingo da Quaresma

1Sm 16,1b.6-7.10-13a; Sl 22; Ef 5,8-14; Jo 9,1-41


Assim como os passos de Israel trilham caminhos novos, também nós trilhamos um caminho rumo à Páscoa. O Quarto Domingo tem convites bonitos que falam ao coração e reflexões profundas para @ peregrin@ quaresmal. Para apascentar o seu povo, escolhe o Senhor a Davi. Aquele que será o novo Rei, o novo pastor. O que deixa um rebanho de ovelhas para apascentar um rebanho de gentes. A figura de Davi no panorama do Antigo Testamento tem uma envergadura considerável. O Espírito do Senhor repousa sobre ele e o faz condutor do povo de Deus. A relação deste texto com o tempo quaresmal repousa na saga de Jesus que é o novo e Bom Pastor. Aquele que por seu sangue e corpo conduzirá um novo povo à libertação em sua Páscoa, que é nossa! Reconhecendo-o como filho de Davi, o Novo Testamento aponta para Jesus como aquele que trará a salvação por tanto tempo esperada. O Senhor não julga segundo as aparências, mas olha o coração. A escolha de Davi na teologia bíblica indica, mais uma vez, a força e a liberdade de Deus que cuida de seu povo e lhe envia pastores. Assim como Moisés em tempos de outrora, Davi é responsável pela condução do povo na justiça e na paz, para a vida e para a liberdade.

Nossos ouvidos escutam, neste quarto domingo, um dos relatos mais emblemáticos do quarto Evangelho: o homem cego de nascença. No capítulo anterior, Jesus afirma ser Ele a luz do mundo (8,12) e agora isso é mostrado com toda a poesia e beleza de João: um homem que dá testemunho de Jesus sem O conhecer! Ele recebe de Jesus a cura, mas não sabe quem é Jesus. Interessante que em quase todo o capítulo Jesus está fora de cena: aparece no começo e no fim. O meio é a intensa profissão de fé “daquele que fora cego”. O texto é uma grande e maravilhosa metáfora sobre os que se dizem de olhos abertos, mas que não se atentam para o que Deus realiza em seu meio. Não raro somos assim: procuramos sinais maravilhosos sem nos recordarmos que o Senhor age no silêncio e até quando “não sabemos” que ele está perto: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”(9,36). A sutileza e leveza da cura, a beleza e certeza da profissão de fé do homem, a discreta relação de Jesus com o que fora cego e a abertura inicial dos olhos aos discípulos (9,3) são elementos ricos e profundos para a meditação quaresmal. Este é o tempo da sutileza, da leveza e da escuta mais atenta ao que o Senhor nos diz. Façamos do tempo quaresmal um sinal para nossas vidas e para a vida de todos. Que nossos olhos estejam abertos quando na Páscoa do Senhor formos testemunhar a sua defesa da vida e do ser humano. Que nossos olhos estejam abertos para que, na Páscoa do Senhor, sejamos capazes de conduzir a muitos que estão presos pelas correntes da indiferença, do descaso e da dor.


quarta-feira, 15 de março de 2017

3o Domingo da Quaresma

Ex 17,3-7; Sl 94; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42

Dá-nos de beber! Estamos, mesmo, a meio caminho do deserto. Neste terceiro domingo da Quaresma adentramos um pouco mais. É bom que paremos um instante para escutar um refrão neste domingo: Estamos com sede (1ao leitura), dá-nos de beber (Evangelho). Junto ao povo de Israel, a impaciência e a revolta contra Moisés (e contra o Senhor). A água do deserto é uma água de discórdia, de revolta e de amargura. Natural, até, porém desconfiado está o povo da presença do Senhor! É interessante que o texto traz uma lembrança ao leitor e à leitora: a vara é aquela que feriu o Nilo (Ex 7,17). Lá atrás, a presença do Senhor, mostrando as maravilhas da libertação; agora, a sua presença junto à necessidade de seu povo. O convite do Senhor é para que o povo se recorde. É bom lembrar que o mesmo cajado dividiu o mar em dois para que o povo fosse, de fato, libertado das garras da escravidão (Ex 14,16). No deserto que estamos fazendo, neste tempo, o convite é o mesmo: a recordação dos feitos do Senhor. É importante lembrar, também, tudo o que Ele fez e tem feito por nós para não cairmos na escravidão da dúvida: Ele está no meio de nós ou não?! O caminho quaresmal deve ser um exercício do coração. O coração, para o povo hebreu, era a sede do conhecimento, da intelectualidade. Dessa forma, exercitar o coração é exercitar a memória para que os passos tenham sentido. Sendo assim, a esmola, a oração e o jejum deixarão de ser meros sinais exteriores e se tornarão marcas pascais de libertação.

Estamos, mesmo, no caminho do deserto. Agora sentamos, ao meio dia, com Jesus à beira do poço de Jacó. E quem é esta que chega com uma vasilha para tirar água? Ela vem da Samaria, vem da África, vem da América, vem da favela e vem do campo. Ela não sabe, mas vai se encontrar, agora, com Aquele que é a água viva. O diálogo é um dos mais belos fragmentos do Evangelho joanino (e do Novo Testamento). Um quadro pintado pelo evangelista. Repare, caro leitor, cara leitora, que por três vezes a mulher se dirige a Jesus como Senhor (vv.11.15.19). As duas primeiras depois de uma fala de Jesus (isto é reconhecimento!). A última vez precede um discurso de revelação que Jesus lhe apresenta. Vamos escutar o diálogo: Jesus fala do dom de Deus e da água viva, ao que ela responde: “Senhor, nem tens vasilha...” Depois Jesus fala de uma água que Ele dá e que é fonte eterna, ao que ela responde: “Senhor, dá-me dessa água... para que eu não precise voltar aqui!” Há um descompasso que nós leitores percebemos: Jesus está muito à frente dela, mas o olhar dela é curto. E nós? Como estamos diante da Palavra do Senhor? O nosso olhar também é curto? Mas ela o reconhece como profeta (terceira vez que aparece Senhor) e Jesus lhe diz da verdadeira adoração. Ao contrário da 1a leitura, este texto é calmaria, sem murmurações e sem revolta. Some o calor do dia, fica somente a leveza das palavras de Jesus e a atenção daquela que vem, da África, da Favela, da Samaria... Uma catequese maravilhosa em defesa da vida (Campanha da Fraternidade) das pessoas e do mundo. A mulher vê, então, os tempos messiânicos (v.25); tempos tão bons que não é mais necessária a vasilha para tirar água (v.28), porque a água da vida nasce da Palavra do Senhor e jorra na fonte do coração.


quarta-feira, 8 de março de 2017

2o Domingo da Quaresma

Gn 12,1-4a; Sl 32; 2Tm 1,8b-10; Mt 17,1-9

Em nosso caminho quaresmal nos encontramos, agora,com Abrão. Ele está parado a meio caminho da terra que Deus vai lhe indicar. Para entender melhor este texto é preciso voltar a Gn 11,27. Ali ele sai da terra de Ur para Canaã, mas para a meio caminho, em Harã. É preciso novo impulso e esse vem com a Palavra do Senhor. Por que pararam? Por que a estrada está feita pela metade? Reflexões que podem ter muitas respostas, mas, por ora, somente algumas indicações. Cinco vezes a palavra bênção e três vezes a terra neste pequeno fragmento de texto. Berakah abundante, bênção sem medida no meio do caminho da incerteza, mas que Abrão abraça com fé e esperança. Não importa o motivo pelo qual pararam, mas à Palavra do Senhor ele se levanta e parte “como o Senhor lhe havia dito” (v.3). Em nossas paradas no caminho, sigamos o exemplo de Abrão; em nossas incertezas na vida, confiemos e esperemos como Abrão. Na continuação do texto (v.4b, que não aparece na liturgia) se diz que Abrão tinha setenta e cinco anos. Bem próximo era o número dos que entraram com Jacó no Egito (Ex 1,5). Sendo assim, é início de novo êxodo para Abrão, novo êxodo para nós. 


Encontramos Jesus numa alta montanha (segundo Mateus), junto com três discípulos neste domingo. Mateus diz que são seis dias depois (v.1, que não aparece no texto da liturgia). É o dia da criação do ser humano, no Gênesis! É um dos textos mais famosos do Novo Testamento, um texto sinótico (isto é, que aparece em Mt, Mc e Lc). Está carregado de elementos exodais a começar pela figura de Moisés. Depois passa pela tenda (da reunião, no deserto) e pelo monte (Sinai, no êxodo). Moisés e Elias estão conversando com Jesus. É o encontro bonito entre o Antigo e o Novo Testamento! Mateus situa o seu texto antes do êxodo de Jesus da Judeia para a Galileia, que se iniciará em 19,1. É um texto que prepara o caminho, um texto verdadeiramente quaresmal, onde os discípulos e nós vislumbramos a brilhante face do Senhor no monte da transfiguração e, mais tarde, em outro monte (com esses mesmos três discípulos) contemplaremos a desfiguração de seu rosto (Paixão). A beleza desta liturgia reside na esperança da glória, assim como na esperança de Abrão. A transfiguração é a certeza para os discípulos de que o caminho do deserto não pode ser feito em vão. É motivo de alegria para os que cremos. É sinal de vida nova que brota da aridez dos desânimos e das incertezas da vida. Vamos com ele, subamos o monte e depois caminhemos, para Jerusalém!    

sábado, 4 de março de 2017

1o Domingo da Quaresma

O êxodo espiritual
Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 50; Rm 5,12-19; Mt 4,1-11


O grande êxodo espiritual dos cristãos (quaresma) inicia-se com o relato mais antigo da criação: um fragmento de Gn 2. Elementos de riqueza incomparável aparecem aí sem que toda a leitura e estudo possam esgotar sua beleza. O ser humano é modelado por Deus e tem Seu hálito de vida. Modelado fora do jardim e colocado nele pelo Criador. Noutras palavras, um hóspede em casa Divina. É como se essas primeiras indicações dominicais já dissessem ao que crê: o caminho é longo, a estrada é difícil mas o Senhor está contigo porque Ele te formou. Ao lado desta preciosa realidade aparece uma outra tão premente em nossos dias: a natureza criada. O jardim, a terra e a água são elementos que ilustram o cuidado divino com a vida humana (Campanha da Fraternidade). O doce sabor da vida, o fruto da esperança que ser humano nenhum tem direito de privar ou arrancar prematura ou arbitrariamente de outrem. Mesmo assim, o Gênesis sugere a desordem no meio humano pela insinuação da mentira no diálogo. A sutileza do texto repousa no reconhecimento de que os “olhos abertos” constatam, apenas, a fragilidade humana e ao o poderio do saber ou do querer ser igual Deus sem que Ele seja a fonte e o caminho deste crescimento. A busca humana pautada só em si é o passo certo para o fracasso e o desgosto que as próprias mãos anseiam e querem. Do barro o ser humano é levado à dignidade e beleza de “ser vivente”. Quando este mesmo ser humano quer – pelas próprias mãos – ser grande, lhe é lembrada a pequenez e fragilidade da vida. Lembra-se, aqui, do ditado popular: o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada.


Quando tocamos o Evangelho segundo Mateus, não temos outra opinião. Aqui continua o êxodo de Jesus começado em Belém, indo para o Egito e voltando ao deserto (40 dias). A primeira resposta à tentação é uma menção a Dt 8,3. Um texto belo e emblemático para toda a teologia do Antigo Testamento. Um texto que coloca sob nova luz todo o caminho de Israel pelo deserto naqueles tempos. O que procede da boca de Deus é, inclusive, o seu hálito de vida (1a leitura). No deserto Israel aprende que tudo é graças a Deus e é isso que Jesus fez, não só na tentação inicial do evangelho, mas em todas as tentações da sua vida (disputas com fariseus, multiplicação dos pães, curas e paixão). As duas seguintes tentações não tem como foco (direto) o ser humano mas se dirigem a Deus. Também citando Dt, Jesus sugere que a verdadeira adoração e o culto verdadeiro (como dirá à Samaritana no 3o Domingo) consiste em levar em conta a vida, o temor do Senhor e a força do Evangelho (que é Ele próprio). Tudo isso Jesus ensinará e viverá no seu êxodo entre nós. É este o grande compromisso de cada cristão e cada cristã para que os sinais dos tempos sejam sinais de vida e vida em plenitude.  

quarta-feira, 1 de março de 2017

Quaresma

Quaresma é tempo de fugir da prisão!

Poucas não são as prisões de hoje: são fortes as amarras nas quais estão presos homens e mulheres. E longos os caminhos trilhados em busca da escravidão. O quê se oferece às mãos pedintes? Quais os grilhões que são abertos? Pelo contrário, parece que o caminho do exílio é cotidiano! É preciso silêncio e reflexão e a quaresma é tempo favorável para isso. Quarenta dias de deserto pessoal e comunitário, revendo os passos e preparando outros na direção de uma vida nova.

Quaresma é tempo de esperar vida nova!

Os cativos que partem não voltam jamais! Eles partiram sem sonhos porque nunca dormiram! Partiram sem dança porque nunca cantaram! Partiram sem reza porque nunca creram! Partiram sem graça porque nunca sorriram! Abraçados às máquinas morrerão em silêncio porque nunca silenciaram nem tentaram se ouvir. Misturados ao lucro morrerão no prejuízo porque nunca quiseram repartir... com ninguém! Quaresma é tempo de rever o que se fez e preparar-se para fazer o melhor. Tempo de libertar-se do lucro e de tudo o que faz da vida um constante vender-se e um oprimente comprar-se.

Quaresma é tempo de ouvir!

São muitos os cativos de hoje! São muitos os cativeiros de agora! Não só de agora, mas de outrora também! Cativeiro de gente que nunca foi gente! De homens que nunca sentiram a terra! Condenados a esquecê-la porque nunca a tiveram! Cativos do bolso e do luxo; do holofote, do mercado e do gasto! Cativos da vida que não foi vivida e que, por isso, convida ao abraço da morte. Quaresma é tempo de libertar-se. Tempo de buscar o Senhor... enquanto Ele se deixa encontrar!