terça-feira, 23 de agosto de 2016

Argonautas do deserto

Argonautas do deserto apresenta um comentário revolucionário sobre a Bíblia e suas origens, defendendo que a maior parte das narrativas e leis bíblicas foram inspiradas na literatura grega. De Gênesis a Reis, os livros da Bíblia podem ter sido escritos por um único autor, um erudito judeu helenizado que teria usado o Estado ideal de Platão no diálogo As Leis como fonte primária. 


Assim, o Israel bíblico seria uma recriação daquelas doze tribos-Estado, e as histórias relativas ao nascimento, vida e morte desse Estado foram inspiradas por epopeias gregas. Cada capítulo apresenta o material bíblico de modo a compará-lo a equivalentes gregos ou romanos, discutindo similaridades e diferenças.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os Salmos Hínicos

por Ronildson de Aquino


Salmos 111, 146 e 149 

Os hinos são uma expressão de amor e alegria do povo de Israel ao Deus criador. Sua origem parece estar na Liturgia do Templo.

 Salmo 111

O salmo tem estrutura alfabética no original. Trata-se de uma celebração festiva da comunidade da Aliança.

vv. 1-3. Deus merece o louvor dos homens pelas grandes e maravilhosas obras que ele tem feito;
vv. 4-6 As suas obras demonstram bondade e misericórdia, protegendo e sustentando o seu povo;
vv. 7-9 As suas obras se baseiam no seu caráter: verdade, justiça, fidelidade, retidão e santidade;
v.10. Os prudentes seguem a sabedoria do Senhor.

Nota-se que:

Existem binômios presentes no salmo; descrição do caráter de Deus, como grande profissão de fé; salmo apresenta uma história de Israel condensada.

Salmo 146

Temos neste salmo um cântico singelo de confiança ao Senhor. É uma confissão de fé ao Deus criador.

vv. 1-2. A palavra “Aleluia” é um termo especial de louvor, que inclui uma forma do nome de Deus. Sempre deve ser pronunciada com reverência para com o Senhor. O Salmista promete louvar a Deus durante toda a sua vida;
vv. 3-4. Não devemos confiar em homens, nem nos mais poderosos, porque não são capazes de salvar, e seu poder é limitado ao pouco tempo que vivem;
vv. 5-7. Bem-aventurado aquele que confia no Senhor. Ele é o criador, o fiel sustentador, e o justo protetor dos oprimidos;
vv. 7-10. O Salmo encerra-se com uma série de declarações sobre as obras de Deus em relação ao seu povo.

Oito ações do Senhor:

Alimenta os famintos; Liberta os encarcerados; Abre os olhos dos cegos; Levanta os abatidos; Ama os justos; Guarda os peregrinos; Ampara o órfão e a viúva; Transtorna o caminho dos perversos.

Nota-se que:

Na simplicidade está a grandeza de Deus, não se trata de um louvor desencarnado, distante da nossa realidade, tem relação direta com a nossa vida. Quem louva a Deus está consciente do seu limite, mas tem uma diferença em sua vida. A criação e a libertação são motivos de louvor. O louvor ressalta que há uma carência real (7-9); quem louva se compromete com a história. Jesus uma vida de louvor, se comprometeu com a verdade. Este salmo tem ressonância na vida e na pregação de Jesus, como por exemplo, Lucas 12,13-21.

Salmo 149

O Salmo motiva toda a comunidade de Israel que acampa no Templo do Senhor para cantar Hinos Ao Deus Criador.

vv. 1-3. Convite. Um Deus que assume novamente seu senhorio na festa por isso um cântico novo. Um novo cântico: Seis vezes no livro de Salmos, ele fala de louvar a Deus com um cântico novo (33, 3; 40, 4; 96,1; 98,1; 144, 9; 149,1). O homem nunca esgotará os motivos para adorar a Deus; sempre descobrirá novas razões para lhe dar honra e glória.
v. 4. O Senhor coroa os oprimidos (ideia de Salvação).
vv. 5-9. Celebrar a vitória junto ao Senhor. Os servos fiéis se dispõem como instrumentos da justiça do Senhor. Punição aos gentios; Ideia do Deus da Guerra. Triunfo Final

Nota-se que:

A imagem de Deus do 1º Testamento; Atenção: fiéis (v.v. 1,5,9) + rei (v. 2 Deus Criador,v. 9 os reis que oprimem); ação de Deus “que gosta do seu povo”, qual o brilho que Deus quer? Das algemas? Da salvação? Espada de dois gumes, expressão retomada no 2º testamento Hb 4,12; Ef 6,17; Ap 12,16.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Quem era Jesus?

(Texto gentilmente cedido por Xabier Pikaza Ibarrondo) 
Tradução: Altamir Andrade

Judeu de nascimento 

Os israelitas nasciam (e nascem), tendo sua vida pessoal e social vinculada a um contexto onde tradições, profetas e livros antigos marcavam a identidade de cada um e conformavam, de algum modo, sua alma. Atualmente, crescemos, por regra geral, num entorno que não sabe dizer quem somos. Dessa forma, parecemos condenados a buscar uma identidade que nos escapa, correndo o risco de morrer sem ter descoberto o que podíamos ter sido. Jesus, ao contrário, nasceu em um povo e em uma família onde muitos haviam esperado e preparado sua chegada para lhe dizer quem era e como devia se comportar. O conhecimento de seu passado (tradição) foi um elemento essencial de sua experiência. 

 Ele levava escrito, de antemão, seu futuro, mas ao mesmo tempo devia interpretá-lo e concretizá-lo ao longo de sua vida, decifrando sua personalidade. Tudo o que poderia ser se tinha sido anunciado nas promessas de Deus (a escritura); mas tudo devia ser confirmado e concretizado por si mesmo em sua própria história, dedicada ao anúncio do Reino de Deus e ao serviço dos pobres. A partir deste pano de fundo, se entende o que se segue: nasceu e viveu desde as figuras e promessas de Israel (em especial as de Moisés, Elias e David). Era um esperado, um destinado, mas ao mesmo tempo, teve que traçar sua identidade pois havia outros modelos de realização messiânica e política. Foi súdito do império romano, de maneira que sua figura pode e deve comparar-se à de Julio César.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O decálogo

por Gianfranco Ravasi

“Decálogo” é o termo grego usado para definir aquelas “dez palavras” fundamentais que regem a moral bíblica, mas que contêm também os valores éticos gerais e naturais. Claro que o fato que essas “palavras” sejam Palavra de Deus comunicada sobre o Sinai, o monte da aliança entre o Senhor e Israel, dá ao decálogo uma qualidade religiosa radical, confirmada sobretudo pelo primeiro mandamento que tem três fórmulas: 

Teológica (Não terás outros deuses…), 

Pastoral (Não farás para ti ídolos nem alguma imagem…) 

Litúrgica (Não te prostrarás diante deles e nem lhes servirás). 

A sequência dos preceitos contém imperativos diretos e negativos, tais como: “não faças!”. Na verdade, este é um modo para sublinhar também o conteúdo positivo que essas leis possuem e assim podemos ver a moral bíblica não unicamente como uma ética do proibido. 

Poderíamos comentar o primeiro mandamento, sobre o qual todos os outros se apoiam, com as palavras do “Shema”, o “Ouve”, a profissão de fé que todo judeu tem dentro de si: Ouve, ó Israel: Iahweh nosso Deus é o único Iahweh”. Portanto, amarás a Iahweh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força (Dt 6,4-5). 

O segundo mandamento - não pronunciar em vão o nome do Senhor teu Deus - é mais do que a blasfêmia e condena a idolatria, sendo o ídolo uma coisa “vã”. Rejeita-se, assim, toda degeneração religiosa. 

O sábado, terceiro mandamento, é o oásis espiritual do culto, no meio do período ferial: através dele se entra no repouso divino, a eternidade, e se descobre a harmonia com a criação e se exalta a liberdade. 

O quarto mandamento é a essência da vida social; isso é provado pela bênção que segue: no pai e na mãe, que são os fundamentos da família, espelham-se todas as relações sociais. 

O “não matar” presente no quinto mandamento celebra, de modo positivo, o direito à vida. É claro que no Antigo Testamento existem exceções reguladas pela lei do Talião ou pelo “anátema”, o massacre sagrado, ou pelo pena capital. Será Cristo que recordará a radicalidade autêntica desse mandamento (veja Mt 5,21-22). 

O “não cometer adultério”, sexto mandamento, sublinha o direito ao matrimônio e propõe um uso humano e correto da sexualidade. 

O sétimo mandamento não só preserva o direito à propriedade, mas fala da liberdade pessoal. De fato, o “não roubar” tem a intenção de proibir o saque com o consequente sequestro de pessoas. 

A verdade, principalmente em âmbito processual, fundamental numa sociedade de tipo oral, é o objeto do oitavo mandamento, que ataca a “falsos testemunhos” nos processos. 

Os dois últimos mandamentos acenam ao direito da propriedade familiar: entre os bens (casa, escravos, bois, burros) é colocada também a mulher, considerada, numa sociedade patriarcal e machista, um tesouro não só em sentido afetivo, mas também como produtora de filhos. É este o sentido da encarnação da Palavra de Deus que não nos deixa esquecer os valores intrínsecos a fórmulas que muitas vezes são vinculadas à épocas históricas determinadas. 

O decálogo permanece, de qualquer forma, como dizia o próprio Lutero, o melhor espelho no qual você pode ver aquilo que lhe falta e aquilo que deve buscar. 

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Gianfranco Ravasi (Merate, 18 ottobre 1942) é um Cardeal católico e teólogo italiano. Famoso biblista, hebraista e arqueólogo. Desde 2007 é presidente do Pontifício conselho para a Cultura, da Pontifícia comissão para os bens culturais da Igreja e da Pontifícia comissão de Arqueologia Sacra.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu amado?

Este sim é, talvez, o mais belo verso do Cântico dos Cânticos (8,5). Aquele que não cansa os olhos de ler e nem os ouvidos de ouvir. Aquele que mostra, candidamente, como é belo o amor entre os jovens, o enamorar-se dos casais e a dignidade das bodas, sejam elas de prata, ouro ou mais. Um verso bíblico no mais profundo sentido porque o Deus da Bíblia quis ser o esposo de uma jovem encontrada no deserto (Os 13,5). Quis fazer dela o seu povo: querido, amado, cuidado, beijado e acariciado. Hoje, nos revezes da vida, o amor tem sido confundido.

Parece não ser identificado com o que vem de Deus. Com os objetos tem sido objeto, com o descartável tem sido descartado. Tem chorado em ruas escuras da vida, clamando a beleza de bons corações, de dois corações... Onde estão os ombros? O apoio da amada? Onde estão as carícias? O afago do amado? Aquelas que curam os mais profundos males? É o Senhor Deus da Bíblia que plantou no coração humano este mais belo dom, do amar e do amor, do carinho e cuidado.

Enxuguemos as lágrimas dos olhos do amor! Só assim ele brilhará como o sol e nos apontará um dia lindo onde as mãos se encontram e juntas refletem a luz do Senhor! Como aquela jovem que subiu do deserto, apoiada em seu amado!