quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Teologia do Apocalipse de São João

A Divindade: em momentos em que os imperadores buscavam para si honras divinas, convinha sublinhar a transcendência de Deus. Aparece sua supremacia como senhor do universo e da história, sua dignidade inacessível, sua potência e sua majestade (4,2;6,10;11,4.15;15,3). É o mesmo Deus do Antigo Testamento, com seus títulos e perfeições (1,4.8;16,11). Apresenta-se, em relevo, sua paternidade e amor aos homens e sua suave providência. 

Trindade: na síntese doutrinal do livro, iluminada por outros dados da revelação do Novo Testamento, é fora de dúvida a doutrina trinitária. Deus, o Pai, a quem se dirigem as orações, com suas diversas apropriações, é um dado presente em todo o livro. Jesus Cristo é o Filho de Deus (2,18) e o Verbo de Deus (19,13). O Espírito Santo exorta às igrejas (cc.2-3), une sua voz à da Igreja para implorar a volta de Cristo (22,17; Cf. Rm 8,26), está indicado na fórmula trinitária do início (1,4-5) e muito provavelmente em outros símbolos. 

Cristologia: uma das notas mais características do Apocalipse é a esplêndida descrição do ser e do agir de Jesus Cristo. Ele preenche todo o livro. Como homem foi crucificado (11,8), é o cordeiro imolado, ressuscitado, com as feridas da luta; leva por nome Filho do Homem, mas tem, contudo, títulos divinos (1,18;3,7;22,13) e prerrogativas divinas, porque ocupa o trono da Divindade (22,1-3); é digno de adoração (5,13); lê os corações (2,23); é adorado pela criação inteira (5,13) e é Senhor da história (5,5;6,1s). É fonte de bens espirituais para os fiéis (3,18).

Soteriologia: Cristo é o agente da salvação (1,5;5,9;7,14;12,11), a qual se atribui por três vezes a Deus, em oposição aos falsos salvadores imperiais (7,10;12,10;19,1). É necessária a cooperação humana (7,14;12,11) e se sublinha a necessidade das obras (20,12;14,13). 

Eclesiologia: as diferentes igrejas locais (cc.2-3) formam uma única Igreja, que é a esposa do Cordeiro, chamada Jerusalém celeste. São descritas suas prerrogativas, sua indefectibilidade e seu ecumenismo. Os fiéis têm uma dignidade como de reis e sacerdotes (1,6). Faz-se alusão, provavelmente, à hierarquia episcopal (1,20) e certamente à dignidade dos apóstolos do Cordeiro (21,14). A existência de profetas é indicada várias vezes (22,9; cf.10,7;16,6;18,20.24).


Fonte:

BARTINA, Sebastián S.I. Contenido Doctrinal. In Apocalipsis de San Juan: traducción y comentario. Madrid: BAC, 1962, p.591-592. (Trad. A. Andrade)

domingo, 16 de abril de 2017

A descida do Senhor à mansão dos mortos

[De antiga homilia no grande Sábado Santo, PG 43, 439.451.462-463.] 

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. 

Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. 

E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’ Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. 

Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa. Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti. 

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus. Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quem matou Jesus?


Considerando a cronologia do Evangelho de Mateus – e não quero me alongar nisso – Herodes, O Grande, reinou na Palestina de 37 a 4 a.C. Foi o responsável pela ampliação do Templo que veio a ser chamado de Templo de Herodes. Sendo assim, Jesus teria nascido no ano 6 a.C. e é bom lembrar que Herodes manda matar as crianças de dois anos para baixo pois não estava certo da data sobre Jesus.

Jesus teria vivido sua infância, adolescência e juventude em Nazaré ou arredores, talvez Cafarnaum decidindo-se por sua chamada “vida pública” ao redor dos seus trinta anos como nos avisa Lucas (3,23). Ora, são muitas as indagações sobre o que ele teria feito neste período anterior. Para falar sobre ele é preciso chamar a atenção para algumas preocupações sobre Jesus na atualidade. Eu diria que temos, pelo menos, três jesuses e um quarto não está descartado.

O primeiro deles (sem querer hierarquizar) é o Jesus histórico. Aquele que nasceu e viveu na Palestina do primeiro século, filho de José e Maria. Trabalhador, talvez iletrado, camponês. Os estudos sobre este Jesus estão avançados e se multiplicam e cito alguns nomes importantes: Paul Méier, Dominic Crossan, Gerd Theissen e Geza Vermes. O segundo é o Jesus dos Evangelhos (repare que uso em maiúscula) também identificado com o Cristo da Fé (não se dissociam como querem alguns). Senhor dos Senhores, o Ressuscitado e fundador do Cristianismo. O terceiro é o Jesus de Hollywood. Aquele que estampa capas de revistas, que fugiu com Maria Madalena e que dá ibope vendendo milhões de livros e películas. Este é bem ao contrário daquele do Evangelho que pedia discrição aos curados e curadas, perdoados e perdoadas e que até os apartava do meio da multidão para melhor conhecer seus problemas.

Outro dia estava diante da TV e vi um pastor evangélico pregando (uso em minúscula e não tenho nada contra os evangélicos até porque tento ser um, etimologicamente falando). Ele dizia que o Jesus no qual ele acreditava era o da prosperidade, aquele que quer que a gente ande de carro, que tenhamos dinheiro (e insistiu muito nessa palavrinha mágica). Aquele Jesus que quer te ver (leitor e leitora) com uma gorda conta bancária. Nada mal. Acho até que Jesus nos quereria bem assim! Só que fiquei pensando que estou lendo um outro evangelho (em minúscula). Leio o (E)vangelho do não ter lugar para reclinar a cabeça; o Evangelho do vender tudo e dar aos pobres; o Evangelho das prostitutas e pecadores; o Evangelho do dar a César o que é de César e do não servir a dois senhores.

Creio que Este seja o Evangelho mais original diante de tantos “piratas” que apareceram e aparecem por aí. O leitor e a leitora devem estar se perguntando quando vou falar do título desta postagem. Pois sim, no fim da vida de Jesus (aquele dos Evangelhos e não o de Hollywood ou o do pastor da TV) a gente nota um contínuo afastar-se das questões do templo (e não Foi o único, vide os monges de Qunran). Parece que, aos poucos, vai se distanciando e se desiludindo com a forma como a religião está sendo tratada pelos seus contemporâneos (vide Marcos 13 e João 2). Sendo assim, o Sanedrin ou Sinédrio (sacerdotes, anciãos e escribas em número de 71) o condenam e o poderio romano o assassina. A história não é tão simples assim, é mais complexa, mais dolorosa. Além disso, nós (hoje) continuamos a apresentar um Jesus que não co-incide com aquele do Evangelho. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!


quinta-feira, 30 de março de 2017

5o Domingo da Quaresma

Ez 37,12-14; S 129; Rm 8,8-11; Jo 11,1-45

As portas se abrem! O Senhor nos chama! É preciso levantar! Neste último domingo da quaresma recebemos um convite sincero para que nossas atitudes espelhem a Páscoa do Senhor. Assim como seu túmulo não o reteve, também nós não poderemos deixar que os túmulos da vida nos segurem. O profeta Ezequiel dá uma notícia alegre ao povo escravo no Exílio: suas sepulturas serão abertas e serão reconduzidos. De outra forma - mas na mesma direção - cantava o salmista: “Quando o Senhor reconduziu nossos cativos parecíamos sonhar!” (Sl 126) Que canção mais alegre! Parece um sonho, quando o Senhor nos liberta! Nascemos de novo para a vida! É isso que o profeta anuncia: a libertação do povo é sua Ressurreição. Esta leitura nos aponta para a Páscoa e nos faz mais firmes em nossas decisões, propostas e esperanças. No Espírito do Senhor revivemos, renascemos e nos tornamos novas pessoas. As portas da morte não nos detêm porque o Senhor desata nossas mãos cansadas e pesadas pela escravidão e nos deixa ir.


Esse é o quadro desenhado por São João no Evangelho: a Ressurreição de Lázaro. Está claro que só podemos ler este texto à luz da Ressurreição de Jesus. Em Lázaro a tristeza converte-se em alegria, o pranto em sorrisos, o limitado em eterno, a agonia em festa e o mau cheiro em perfume. No mau cheiro de Lázaro residem as desesperanças dos discípulos, das irmãs dele (Marta e Maria) e dos judeus. Mas para Jesus, ele dorme e será acordado! Não vamos nos ater ao choro de Maria e nem ao desconcerto de Marta. No mau cheiro de Lázaro residem nossas enfermidades, nossas angústias e nossas pedras; mas na Palavra do Senhor estão nossas curas, nossas canções e nossas flores; o perfume e a esperança. Lázaro fica quatro dias no seio da terra e Jesus passará três dias no seio da mesma. No entanto, o Pai sempre O ouve e, com Jesus, devolve a vida a Lázaro. Assim também O ressuscitará dentre os mortos. Essa é a nossa fé! Fé que não nos deixa esmorecer e revigora o que temos de melhor: a presença do Senhor ressuscitado que caminha em nosso meio. A liturgia de hoje é uma liturgia pascal, liturgia de vida. São João carrega o pincel nos contrastes, como acima mencionamos, mas conclui com a leveza e o mistério que é típico de sua pena: “Desatai-o e deixai-o ir!” Reflitamos, às portas da Santa Semana, o que isso significa: “Desatai-o e deixai-o ir!”  

quarta-feira, 22 de março de 2017

4o Domingo da Quaresma

1Sm 16,1b.6-7.10-13a; Sl 22; Ef 5,8-14; Jo 9,1-41


Assim como os passos de Israel trilham caminhos novos, também nós trilhamos um caminho rumo à Páscoa. O Quarto Domingo tem convites bonitos que falam ao coração e reflexões profundas para @ peregrin@ quaresmal. Para apascentar o seu povo, escolhe o Senhor a Davi. Aquele que será o novo Rei, o novo pastor. O que deixa um rebanho de ovelhas para apascentar um rebanho de gentes. A figura de Davi no panorama do Antigo Testamento tem uma envergadura considerável. O Espírito do Senhor repousa sobre ele e o faz condutor do povo de Deus. A relação deste texto com o tempo quaresmal repousa na saga de Jesus que é o novo e Bom Pastor. Aquele que por seu sangue e corpo conduzirá um novo povo à libertação em sua Páscoa, que é nossa! Reconhecendo-o como filho de Davi, o Novo Testamento aponta para Jesus como aquele que trará a salvação por tanto tempo esperada. O Senhor não julga segundo as aparências, mas olha o coração. A escolha de Davi na teologia bíblica indica, mais uma vez, a força e a liberdade de Deus que cuida de seu povo e lhe envia pastores. Assim como Moisés em tempos de outrora, Davi é responsável pela condução do povo na justiça e na paz, para a vida e para a liberdade.

Nossos ouvidos escutam, neste quarto domingo, um dos relatos mais emblemáticos do quarto Evangelho: o homem cego de nascença. No capítulo anterior, Jesus afirma ser Ele a luz do mundo (8,12) e agora isso é mostrado com toda a poesia e beleza de João: um homem que dá testemunho de Jesus sem O conhecer! Ele recebe de Jesus a cura, mas não sabe quem é Jesus. Interessante que em quase todo o capítulo Jesus está fora de cena: aparece no começo e no fim. O meio é a intensa profissão de fé “daquele que fora cego”. O texto é uma grande e maravilhosa metáfora sobre os que se dizem de olhos abertos, mas que não se atentam para o que Deus realiza em seu meio. Não raro somos assim: procuramos sinais maravilhosos sem nos recordarmos que o Senhor age no silêncio e até quando “não sabemos” que ele está perto: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”(9,36). A sutileza e leveza da cura, a beleza e certeza da profissão de fé do homem, a discreta relação de Jesus com o que fora cego e a abertura inicial dos olhos aos discípulos (9,3) são elementos ricos e profundos para a meditação quaresmal. Este é o tempo da sutileza, da leveza e da escuta mais atenta ao que o Senhor nos diz. Façamos do tempo quaresmal um sinal para nossas vidas e para a vida de todos. Que nossos olhos estejam abertos quando na Páscoa do Senhor formos testemunhar a sua defesa da vida e do ser humano. Que nossos olhos estejam abertos para que, na Páscoa do Senhor, sejamos capazes de conduzir a muitos que estão presos pelas correntes da indiferença, do descaso e da dor.